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Editorial do mês |
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Dor lombar em foco - o papel da atenção
primária à saúde
Caio Junio
Leite Alencar e Fabricio Sousa Pereira*
A dor lombar (DL)
afeta aproximadamente 619 milhões de pessoas
em todo o mundo, e estima-se que esse número
aumente para 843 milhões até 2050 [1]. No
Brasil, as estatísticas são semelhantes e as
mulheres apresentam prevalência de dor
lombar crônica em torno de 46% [2]. Entre os
principais fatores de risco estão obesidade,
sedentarismo, baixo nível de conhecimento,
tabagismo, posturas inadequadas,
vulnerabilidade social, fatores
psicossociais e ocupacionais, sexo e
envelhecimento [3].
A dor lombar é
uma condição multifatorial, que afeta
significativamente a vida e o trabalho dos
indivíduos. Entre os riscos ergonômicos
ocupacionais, destacam-se posturas
incorretas, ritmo excessivo de trabalho,
falta de treinamento e movimentos
repetitivos, fatores que favorecem o
surgimento e a cronificação da dor. Trata-se
também de uma das principais causas de
afastamento laboral, com elevado impacto na
produtividade e na qualidade de vida [4-5].
O Ministério
da Saúde destaca a Atenção Primária à Saúde
(APS) como o principal ponto de atendimento
para dor lombar dentro da Rede de Atenção à
Saúde (RAS), não apenas pela sua
capilaridade, mas também pelo vínculo entre
profissionais e usuários. Nesse contexto, as
ações de prevenção e tratamento incluem
educação em saúde, com orientações sobre a
fisiologia da dor e fatores de risco
modificáveis. Nas linhas de cuidado do
Ministério da Saúde, há um fluxo estruturado
para o atendimento de pacientes com dor
lombar, disponível no portal oficial, que
orienta o usuário sobre qual unidade de
saúde procurar conforme sua necessidade,
otimizando o acesso e a resolutividade do
sistema [6].
Além de seu
papel assistencial, a APS possui potencial
estratégico na vigilância e no monitoramento
da dor lombar, por meio do registro
sistemático dos casos e dos fatores
associados, permitindo identificar perfis
populacionais de maior vulnerabilidade e
planejar intervenções mais direcionadas. A
integração entre ações clínicas e
intersetoriais, como políticas de promoção
da atividade física, ergonomia laboral e
reabilitação comunitária, amplia o alcance
das estratégias de prevenção e controle
dessa condição. Ademais, a capacitação
contínua das equipes de saúde, especialmente
no uso de abordagens biopsicossociais, tem
mostrado resultados positivos na redução da
dor e na melhora funcional dos pacientes
[7]. Dessa forma, o fortalecimento da APS
como espaço de cuidado integral,
longitudinal e centrado na pessoa é
essencial para enfrentar a crescente carga
da dor lombar no contexto das doenças
crônicas não transmissíveis.
Entre as
principais formas de prevenção e tratamento,
destacam-se os exercícios de fortalecimento
muscular, mobilidade, flexibilidade e
estabilização central [8]. No entanto, o
autoconhecimento e a educação em saúde
também desempenham papel essencial no manejo
da DL, uma vez que compreender as causas,
formas de prevenção e possibilidades de
tratamento contribui para melhorar a
qualidade de vida dos indivíduos acometidos
[9].
Estudos
apontam uma prevalência de DL de 63,4% entre
profissionais da APS, dos quais 52% relatam
dor durante o trabalho e 27,9% já se
afastaram por licença médica. A incapacidade
funcional é mais frequente entre os
profissionais com IMC elevado, sedentários e
com histórico de afastamento médico,
totalizando 12,8% de incapacitação [10].
Esses dados reforçam o impacto da DL sobre a
saúde ocupacional e a necessidade de medidas
preventivas nas equipes de saúde.
A educação em
saúde tem se mostrado uma estratégia eficaz
e acessível, especialmente quando associada
à comunicação direta com os pacientes.
Experiências municipais indicam que o uso de
materiais educativos e orientações remotas,
como vídeos enviados por aplicativos de
mensagem, amplia o alcance das ações
preventivas e terapêuticas, promovendo
autocuidado e adesão ao tratamento [11].
Evidências apontam que tais intervenções
educativas, ao incentivar o protagonismo do
paciente e o entendimento de sua condição,
resultam em melhores desfechos clínicos e
maior efetividade dos tratamentos
convencionais [12].
A oferta de
informações claras e baseadas em diretrizes
clínicas é fundamental para aprimorar a
tomada de decisão compartilhada no manejo da
DL. Evidências mostram que materiais
informativos estruturados, que apresentam
opções de tratamento, preparam melhor os
pacientes para participar das decisões sobre
seu cuidado do que abordagens baseadas
apenas no aconselhamento clínico direto
[13].
Portanto,
fortalecer o protagonismo do indivíduo nas
decisões sobre seu cuidado é essencial para
o manejo efetivo da dor lombar na APS. A
educação em saúde, aliada à informação de
qualidade e à tomada de decisão
compartilhada, promove autonomia, adesão ao
tratamento e um cuidado mais resolutivo,
humanizado e centrado na pessoa.
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* Alunos de
mestrado - UnB - disciplina da Pós-Graduação.
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