A dor crônica
associada às feridas em pacientes com
diabetes mellitus representa um desafio
clínico relevante, com impacto negativo
significativo na qualidade de vida,
limitando a mobilidade e aumentando o risco
de complicações como infecções e amputações.
A hiperglicemia persistente favorece a
ocorrência de microangiopatia, neuropatia e
inflamação tecidual - fatores que retardam a
cicatrização e perpetuam a dor neuropática e
inflamatória. No entanto, os tratamentos
analgésicos tradicionais, cuidados de
higiene, desbridamento e curativos nem
sempre alcançam alívio suficiente ou
promovem reparo adequado1.
Diante desse
cenário, a terapia a laser de baixa
intensidade (LLLT), também conhecida como
fotobiomodulação (PBM), surge como uma
alternativa promissora. Isso por atuar
simultaneamente na dor, regeneração tecidual
e inflamação, integrando aspectos
metabólicos e neurológicos. Ela consiste em
uma modalidade terapêutica baseada na
aplicação de luz não ionizante, utilizando
fontes como lasers de diferentes potências,
diodos emissores de luz (LEDs) e luzes de
espectro amplo e até luzes policromáticas.
Essa técnica opera nas faixas visível e
infravermelha, desde que emitam comprimentos
de onda específicos capazes de produzir
efeitos terapêuticos sem provocar danos
térmicos1,2.
A PBM é
aplicada diretamente sobre a pele – seja
íntegra, ou áreas lesionadas ou ainda por
via intravascular (ILIB) – e atua por meio
da interação da luz com fotorreceptores
celulares, especialmente a citocromo c
oxidase (CcO) mitocondrial. Isso acaba
promovendo aumento da síntese de ATP,
modulação do óxido nítrico (NO) e das
espécies reativas de oxigênio (ROS) em
níveis fisiológicos2,3. Esses
eventos estimulam a angiogênese, a
proliferação celular e a síntese de
colágeno, além de aumentar a atividade
antioxidante4,5.
Adicionalmente, a PBM reduz mediadores
inflamatórios importantes (como TNF-α, IL-1β
e COX-2) e aumenta a expressão de citocinas
anti-inflamatórias (como IL-10) e
analgésicas6,7. Esses mecanismos
convergem para a restauração do metabolismo
celular, controle da inflamação e alívio da
dor, explicando os efeitos terapêuticos já
observados e relatados. As diferentes
aplicações da fotobiomodulação já foram
discutidas em edições anteriores do Boletim
Dor Online, incluindo temas como ‘Tratamento
com laser acupuntura para dor em pacientes
com osteoartrite’ (2021)8 e
‘Laser intravascular (ILIB) – uma terapia
auxiliar no controle da dor’ (2022)9,
o que reforça a relevância crescente dessa
abordagem tecnológica. Entretanto, a
abordagem voltada para o uso específico em
lesões diabéticas e o controle da dor ainda
não foi contemplada, uma área que merece
atenção pela complexidade clínica e pelo
impacto na qualidade de vida dos pacientes.
Em feridas
diabéticas crônicas, o processo regenerativo
costuma estar bloqueado na fase
inflamatória, com produção elevada de
citocinas pró-inflamatórias, estresse
oxidativo e proliferação ineficiente de
fibroblastos e queratinócitos. Estudos
recentes demonstram que a PBM, com
comprimentos de onda vermelhos e
infravermelhos, modula essas vias, reduz o
estresse oxidativo, regula mediadores
inflamatórios, aumenta fatores de
crescimento e restabelece o equilíbrio redox10.
Đorđević et al. (2025)11
evidenciaram que a LLLT acelera a
cicatrização de úlceras em mucosa oral de
ratos diabéticos, com efeitos bioquímicos
positivos fundamentais para o alívio da dor,
uma vez que a inflamação persistente e o
acúmulo de radicais livres sensibilizam os
nociceptores.
Ensaios
clínicos recentes têm mostrado que a PBM não
apenas acelera a redução da área de úlceras,
como também promove alívio da dor. Um estudo
clínico randomizado com 80 pacientes mostrou
que a PBM de 904 nm, com densidade de
energia de 10 J/cm², foi mais eficaz na
promoção da cura completa de úlceras no pé
diabético após 10 semanas, além de
apresentar maior redução da área de lesão –
embora o alívio da dor não fosse o desfecho
primário12. Outro estudo, focado
especificamente na dor neuropática em
pacientes com diabetes mellitus tipo 2,
demonstrou que a PBM de 632,8 nm aplicada
sobre superfícies dorsais e plantares por 10
dias reduziu significativamente escores de
dor neuropática, melhorou sensibilidade,
biomarcadores neurais e qualidade de vida13.
Uma revisão sistemática sobre neuropatia
periférica diabética confirmou que a PBM
apresenta evidências de melhora da dor
neuropática e função nervosa, bem como
redução da pressão plantar – um fator de
risco importante para o surgimento de novas
feridas14.
Segundo
Perrier et al. (2024)10, estudos
clínicos e pré-clínicos indicam que a PBM
promove efeitos analgésicos significativos,
com redução de 2 a 5 pontos na escala visual
analógica (VAS), além de estimular processos
biológicos como angiogênese, proliferação de
fibroblastos e aumento da densidade de
colágeno, favorecendo a cicatrização
tecidual. Esses benefícios são
particularmente relevantes para pacientes
diabéticos, que frequentemente enfrentam
dificuldades na regeneração de tecidos e dor
persistente.
A PBM aplicada
ao tratamento de feridas diabéticas é uma
inovação que vem sendo pesquisada e
desenvolvida a alguns anos na Universidade
de Brasília (UnB). Atualmente, no âmbito do
Programa da Pós-graduação em Engenharia
Biomédica da UnB, o método RAPHA© combina um
dispositivo emissor de luz LED vermelha de
baixa intensidade, com efeito
anti-inflamatório e analgésico, à
biomembrana de látex, que apresenta
propriedades antibacterianas e indutoras de
neoformação tecidual. Essa tecnologia atua
de forma integrada nas fases do reparo
celular: modulando células inflamatórias e
estimulando fatores de crescimento,
promovendo angiogênese e deposição de
colágeno, e reorganizando fibras e vasos
sanguíneos na fase de remodelação. Com
sessões diárias de 35 minutos, o protocolo
tem demonstrado resultados superiores ao
tratamento convencional, acelerando a
cicatrização de úlceras do pé diabético,
configurando-se como uma solução inovadora e
eficaz para regeneração tecidual e
consequentemente, para o controle
analgésico. O método RAPHA© está em processo
de aprovação pelos órgãos reguladores como a
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA)
e a Comissão Nacional de Incorporação de
Tecnologias no SUS (CONITEC), para futura
aplicação no Sistema Único de Saúde15,16.
No entanto, o
uso da PBM ainda enfrenta desafios
importantes, como a ausência de padronização
dos parâmetros de aplicação — incluindo
comprimento de onda, fluência, tempo de
exposição e frequência das sessões — o que
dificulta a replicação dos resultados e a
definição de protocolos clínicos eficazes.
Embora os
efeitos positivos no alívio da dor e na
cicatrização de lesões diabéticas sejam bem
documentados, o impacto da PBM na qualidade
de vida dos diabéticos também se mostra
promissor, ainda que pouco investigado de
forma sistemática em pesquisas clínicas10,17,18.
Portanto, apesar do potencial terapêutico,
são necessários ensaios clínicos mais
robustos e padronizados para consolidar a
PBM como uma ferramenta complementar segura
e eficaz no manejo da dor e das feridas em
pacientes diabéticos.
Apesar dos
desafios inerentes ao manejo das feridas
crônicas em pacientes com diabetes mellitus,
a PBM desponta como uma alternativa valiosa,
especialmente quando utilizada como
adjuvante ao tratamento convencional. Seus
efeitos sobre dor, inflamação e regeneração
tecidual indicam um potencial significativo
para melhorar desfechos clínicos e qualidade
de vida. No entanto, para que essa abordagem
seja incorporada de forma ampla e segura na
prática clínica, é imprescindível a
realização de mais pesquisas que permitam
otimizar protocolos, definir parâmetros
ideais e garantir sua integração como uma
opção acessível, eficaz e baseada em
evidências.
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* Alunas de
pós-graduação da Faculdade de Ciências e
Tecnologias em Saúde da UnB - Campus de
Ceilândia;
** Docente da
Faculdade de Ciências e Tecnologias em Saúde
da UnB - Campus de Ceilândia;