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Divulgação Científica
1. Estudo descobre forte dependência de síntese de óxido nítrico endotelial na hipersensibilidade tátil e vasodilatação em modelo experimental de enxaqueca
Esse estudo
investigou o envolvimento do óxido nítrico
na resposta ao ativador do canal de potássio
sensível ao trifosfato de adenosina e seu
envolvimento na cefaleia e
hipersensibilidade tátil em camundongos. O
objetivo da pesquisa foi investigar os
mecanismos envolvidos na hipersensibilidade
relacionada à enxaqueca causada pela
abertura dos canais KATP, com foco nas
enzimas óxido nítrico sintase e no estresse
nitrosativo.
Os
pesquisadores realizaram experimentos em
camundongos provocando sensibilidade através
da aplicação de levcromakalim, avaliando as
reações estimuladas e alterações
relacionadas ao óxido nítrico. Para
identificação exata do processo, compararam
camundongos normais com animais
geneticamente modificados, que não produziam
algumas formas da enzima específica do óxido
nítrico, e testaram bloqueadores químicos
direcionados. Os resultados mostraram que ao
inibirem a produção de óxido nítrico, não
houve desenvolvimento da hipersensibilidade.
O óxido
nítrico impulsiona a hipersensibilidade
tátil induzida pela abertura de canais de
potássio sensíveis a ATP em camundongos. O
estudo concluiu que o aumento da produção de
óxido nítrico e peroxinitrito na dura-máter,
promove um estresse nitro-oxidativo que
contribui para mecanismos semelhantes aos da
enxaqueca.
Referências:
Rasmussen RH, Ernstsen C, Holm A, et al. De
novo nitric oxide synthesis drives tactile
hypersensitivity induced by ATP-sensitive
potassium channel opening in mice: relevance
to migraine and other headache disorders.
Pain. 2026;167(7):e222-e243. doi:10.1097/j.pain.0000000000003955
Escrito por
Jennifer Mendes Alexandre e Amanda Rafaela
Câmara Bernardes Freitas dos Santos.
2. Dor persistente e adversidades na infância estão associadas a mudanças no desenvolvimento cerebral
Crianças com
dor persistente ou recorrente e experiências
adversas no início da vida apresentaram
alterações no desenvolvimento cerebral. O
estudo analisou 1.671 crianças participantes
do estudo ABCD, nos Estados Unidos, com
dados coletados entre 2018 e 2023. Os
pesquisadores avaliaram exames de
ressonância magnética realizados no início e
após dois anos de acompanhamento. O objetivo
foi investigar os efeitos combinados da dor
e das adversidades sobre o cérebro durante o
desenvolvimento infantil. Os resultados
mostraram alterações mais acentuadas em
algumas regiões cerebrais nas crianças
expostas às duas condições.
Os
pesquisadores analisaram dados de crianças
acompanhadas durante dois anos, divididas em
grupos conforme a presença de dor
persistente ou recorrente e de adversidades
no início da vida. As informações sobre dor
e experiências adversas foram obtidas por
relatos dos responsáveis, enquanto exames de
ressonância magnética permitiram avaliar
diferentes regiões cerebrais. Os resultados
foram comparados por meio de análises
estatísticas, considerando as mudanças
observadas ao longo do acompanhamento de
forma longitudinal.
A combinação
entre dor persistente ou recorrente e
adversidades no início da vida esteve
associada a alterações em regiões cerebrais
relacionadas à dor e às emoções. Os achados
reforçam a importância de considerar essas
experiências durante o desenvolvimento
infantil. Entretanto, o estudo não permite
afirmar que essas condições sejam a causa
direta das alterações observadas.
Referências:
Lim TE, Humburg P, Reay WR, Gustin SM, Quidé
Y. Cumulative impacts of early-life
interpersonal adversity and persistent/recurrent
pain in children: a longitudinal normative
modelling study from the ABCD study cohort.
Pain. 2026;167(8):e301-e311. doi:10.1097/j.pain.0000000000003995. Escrito por Flávia Gabrielle de Castro Pereira.
3. O medo do retorno do câncer pode aumentar a dor em sobreviventes jovens
Um estudo
longitudinal com 111 mulheres jovens
sobreviventes de câncer de mama e
ginecológico mostrou que o medo da
recorrência do câncer prevê o aumento da dor
e da fadiga ao longo do tempo. A pesquisa
acompanhou participantes de 18 a 39 anos em
três avaliações, com intervalos de dois
meses, e descobriu que para uma mesma
pessoa, quando o medo de o câncer voltar
aumentava, a dor tendia a piorar no período
seguinte. O inverso não foi observado, ou
seja, a dor não previu o aumento do medo. O
estudo, publicado na revista Pain em julho
de 2026, foi conduzido com sobreviventes que
já haviam concluído o tratamento curativo.
Os
pesquisadores usaram um modelo estatístico
chamado painel com defasagem cruzada, que
permite avaliar a direção das relações ao
longo do tempo. A dor e a fadiga foram
medidas por uma versão adaptada da Memorial
Symptom Assessment Scale (MSAS), enquanto o
medo da recorrência foi avaliado pelo
Inventário de Medo da Recorrência do Câncer.
Os resultados mostraram que o medo da
recorrência foi um preditor significativo do
aumento da dor e fadiga, mas a dor não
predisse o medo.
O medo de que
o câncer volte pode ser um fator que
antecede e intensifica a dor e o cansaço em
sobreviventes jovens. Isso sugere que
intervenções psicológicas voltadas a reduzir
esse medo podem também aliviar sintomas
físicos crônicos. Como limitação, o estudo
teve amostra relativamente pequena e
acompanhamento de apenas quatro meses, sendo
necessários estudos mais longos para
confirmar os achados.
Referência:
SWEENEY, Louise et al. Cross-lagged
longitudinal analysis of pain and fear of
cancer recurrence in young female survivors
of breast and gynaecological cancers. Pain,
[S. l.], v. 167, n. 7, p. 1569-1577, 1 jul.
2026. DOI: 10.1097/j.pain.0000000000003951.
Escrito por Rebeca Vitória Marques Rocha.
4. Diferentes tipos de sons do cotidiano conseguem alterar a dor de pessoas com fibromialgia? Um ensaio clínico randomizado
Pesquisadores da Universidade de Granada, na Espanha, investigaram se diferentes ambientes acústicos do cotidiano poderiam influenciar a experiência da dor em pessoas com síndrome de fibromialgia. A pesquisa foi realizada entre agosto e outubro de 2025, com 88 participantes expostos a quatro condições acústicas (ambiente natural, ambiente urbano, ruído de banda larga e silêncio) durante quatro sessões realizadas ao longo de quatro semanas. Os resultados mostraram que o ambiente urbano aumentou a intensidade e a sensibilidade à dor, enquanto o ambiente natural apresentou resultados parecidos com as condições de controle.
Para avaliar os efeitos dos ambientes acústicos, foi realizado um ensaio clínico randomizado, triplo-cego, controlado por placebo e com desenho crossover 4x4 de Williams. Em cada sessão os participantes permaneceram expostos a uma das condições acústicas durante 20 minutos. A intensidade da dor foi avaliada por uma escala visual analógica, enquanto a sensibilidade à dor foi investigada por testes sensoriais quantitativos, incluindo sensibilidade mecânica, somação temporal, limiar de dor à pressão e intensidade da dor à pressão. A análise estatística utilizou modelos lineares de efeitos mistos para comparar as condições. O ambiente urbano apresentou maior intensidade da dor, maior sensibilidade mecânica, menor limiar de dor à pressão e maior intensidade de dor à pressão. A somação temporal não apresentou diferenças significativas.
Os resultados sugerem que os ambientes acústicos podem ser fatores ambientais importantes na experiência da dor crônica. Desta forma, os pesquisadores apontam que os ambientes acústicos podem ser utilizados em futuras estratégias de manejo da dor, embora ainda sejam necessários outros estudos que avaliem exposições mais prolongadas e em situações próximas do cotidiano.
Referências: Gungormus, D. B., & Pérez-Mármol, J. M. (2026). The impact of everyday acoustic environments on chronic pain mechanisms in fibromyalgia: a randomized, triple-blind, placebo-controlled 4 × 4 crossover trial. Pain, 167(8), 1941–1957. https://doi.org/10.1097/j.pain.0000000000004042 https://journals.lww.com/pain/fulltext/10.1097/j.pain.0000000000003951~cross-lagged-longitudinal-analysis-of-pain-and-fear-of
Escrito por Letícia Gomes de Araújo.
5. Falha na limpeza de células mortas por macrófagos agrava a dor neuropática
Pesquisadores do MD Anderson Cancer Center revelaram um novo mecanismo neuroimune que contribui para o desenvolvimento da dor neuropática após lesão de nervos periféricos. O estudo, publicado na revista PNAS, demonstrou que a lesão nervosa induz a quebra (clivagem proteolítica) do MERTK, um receptor de superfície presente em macrófagos. A redução deste receptor prejudica a eferocitose — o processo pelo qual os macrófagos limpam células mortas (apoptóticas e necroptóticas) do local da lesão. O achado principal indica que o acúmulo desses detritos celulares não removidos desencadeia uma sinalização pró-inflamatória prolongada que exacerba o dano aos axônios e aumenta a excitabilidade dos neurônios sensoriais, facilitando a dor crônica.
Para investigar esse processo, a equipe utilizou camundongos geneticamente modificados para expressar uma versão do receptor MERTK resistente à clivagem. Após a indução de lesão no nervo ciático, os animais com a mutação protetora apresentaram menor acúmulo de células mortas no local da lesão, redução na polarização de macrófagos para um perfil inflamatório e menor dano à bainha de mielina dos nervos. Consequentemente, esses camundongos demonstraram atenuação significativa nos comportamentos associados à dor neuropática, como a alodinia mecânica (dor causada por estímulos leves) e a hiperalgesia térmica. A análise celular revelou ainda que a preservação do MERTK evitou a hiperatividade de neurônios sensoriais específicos (TRPV1+) no gânglio da raiz dorsal.
Os resultados explicam por que os processos imunológicos de resolução, que normalmente encerram a inflamação e promovem o reparo tecidual, falham no contexto da dor neuropática. A incapacidade de limpar os corpos celulares resulta na liberação de moléculas associadas a dano (DAMPs) e na produção de autoanticorpos (IgG), que mantêm a sensibilização do sistema nervoso. Ao identificar a clivagem do MERTK em macrófagos como um regulador central da sinalização neuroimune prejudicial, o estudo destaca a eferocitose como um alvo terapêutico inexplorado. Intervenções capazes de restaurar a capacidade de limpeza dos macrófagos podem acelerar a recuperação após lesões nervosas e oferecer novas abordagens para o tratamento da dor crônica debilitante.
Referência: Pandey, V. K., Acharya, T. K., Wilcox, K. F., Dembla, S., Ramanujan, A., Grieco, A. R., Zuberi, Y. A., Mahalingam, R., Shepherd, A. J., Heijnen, C. J., & Grace, P. M. Peripheral nerve injury reduces macrophage efferocytosis to facilitate neuropathic pain. PNAS. 2026;123(1):e2511401122. DOI: https://doi.org/10.1073/pnas.2511401122
Escrito por Paulo Gustavo Barboni Dantas
Nascimento.
6. O tratamento simultâneo da dor crônica e dos sintomas relacionados ao trauma é eficaz? Uma revisão sistemática e metanálise de intervenções psicológicas Pesquisadores
da Universidade de Toronto e instituições
afiliadas no Canadá, investigaram a eficácia
de intervenções psicoterapêuticas para
adultos que sofrem ao mesmo tempo de dor
crônica e sintomas relacionados a traumas. O
estudo juntou dados de 18 ensaios clínicos
randomizados de 5 bancos de dados,
abrangendo pesquisas publicadas até outubro
de 2025, com o objetivo de isolar e avaliar
o impacto da psicoterapia nesses pacientes.
Os resultados revelaram que as intervenções
psicológicas, incluindo a Terapia
Cognitivo-Comportamental (TCC) e terapias
focadas no trauma, foram capazes de reduzir
de forma pequena a moderada a intensidade e
interferência da dor no dia a dia e os
sintomas de trauma imediatamente após o
tratamento. A análise também comprovou que
esses efeitos benéficos se mantiveram
consistentes em avaliações de acompanhamento
realizadas de três a seis meses após o
término das intervenções.
Para avaliar
se as intervenções psicoterapêuticas são
eficazes em pacientes com dor crônica e/ou
que passaram por situações traumáticas, foi
realizada uma revisão sistemática com
metanálise de ensaios clínicos randomizados.
A pesquisa foi conduzida de acordo com as
diretrizes PRISMA e utilizou a ferramenta
Cochrane Risk of Bias 2 (RoB 2) para avaliar
o risco de viés dos estudos selecionados. Os
estudos elegíveis incluíram: adultos com 18
anos ou mais que apresentavam dor crônica;
indivíduos com exposição e sintomas
relacionados a traumas (definidos por relato
de exposição, diagnóstico ou histórico de
Transtorno de Estresse Pós-Traumático [TEPT]
e histórico de abuso ou negligência
infantil); desfechos validados para dor ou
sintomas associados; e a avaliação dos
efeitos de intervenções psicológicas.
A análise
combinada dos estudos revelou que as
intervenções psicológicas são eficazes para
tratar simultaneamente a dor crônica e os
sintomas de trauma. Os benefícios se
mostraram presentes logo após o fim das
sessões e se mantiveram consistentes meses
depois. Desta forma, os resultados reforçam
a importância de uma abordagem integrada,
considerando a relação entre a dor crônica e
os sintomas relacionados ao trauma, uma vez
que essas condições podem influenciar e se
manter mutuamente. Entretanto, ainda não é
possível estabelecer uma modalidade
psicológica específica como tratamento
padrão. Por fim, faz-se necessários estudos
mais robustos, com amostras maiores,
metodologias mais rigorosas e
grupos-controle ativos, que permitam
identificar quais intervenções são mais
eficazes e quais pacientes podem se
beneficiar mais desses tratamentos.
Referências:
Rosenbloom, B. N., Curtis, K., Williams, C.,
Slepian, P. M., McCarthy, M., Flynn, M.,
Nella, A., Kim, A., Siegal, R., Englesakis,
M., Ladha, K. S., Di Renna, T., & Bosma, R.
(2026). Is treating both chronic pain and
trauma-related symptoms at the same time
effective? A systematic review and
meta-analysis of psychological interventions.
PAIN, 167(7), e207-e221. Escrito por Isabele Duarte, Danielle Jesus, Carolina Andrade e Letícia Gomes.
7. Além da bexiga - novos mecanismos envolvidos na dor vesical persistente
Pesquisadores investigaram o papel dos receptores do peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP) na amígdala durante o desenvolvimento da dor vesical persistente em camundongos. O estudo avaliou a participação dessa via de sinalização em um modelo experimental de dor visceral, com o objetivo de compreender o envolvimento de mecanismos centrais na manutenção desse estado. A investigação concentrou-se na amígdala, uma estrutura encefálica envolvida na modulação da dor, buscando compreender como a sinalização mediada por CGRP nessa região influencia na persistência da dor vesical.
Antagonistas dos receptores de CGRP foram administrados de forma direcionada na amígdala, permitindo o bloqueio localizado dessa sinalização. Os efeitos dessa intervenção foram avaliados por meio de comportamentos relacionados à dor vesical, possibilitando comparar o impacto da inibição dessa via sobre o quadro persistente. Adicionalmente, foram avaliados parâmetros relacionados à ativação dessa sinalização na amígdala, permitindo associar as respostas comportamentais à participação dessa região na modulação da dor.
A ativação dos receptores de CGRP na amígdala esteve associada à manutenção das respostas relacionadas à dor vesical, enquanto o bloqueio farmacológico dessa via reduziu esses comportamentos nos animais. Esses resultados demonstram que a sinalização mediada por CGRP nessa região apresenta relevância funcional na regulação da dor vesical persistente. O estudo destaca a participação da amígdala na modulação da dor, evidenciando uma via central específica envolvida na sustentação desse quadro.
Referência: Lewter, L. A., Paul, B. K., Salazar, A. M., Chatterjee, U., Pham, H. P. T., Khan, M. Z., Schmitz, A. E., Nofal, A. M., Hussein, M. M., Mysorekar, I. U., & Kolber, B. J. (2025). The role of amygdala calcitonin gene-related peptide receptors on the development of persistent bladder pain in mice. bioRxiv : the preprint server for biology, 2025.06.10.658965. https://doi.org/10.1101/2025.06.10.658965
Escrito por Mariana Lôbo Moreira.
8. Dissociação entre excitabilidade elétrica preservada e perda de sensibilidade térmica na neuropatia diabética
O estudo de avaliação sensorial em pacientes com neuropatia diabética, conduzido por meio de abordagens multimodais que combinaram testes quantitativos de sensibilidade e estimulação elétrica direcionada a fibras aferentes, investigou a relação entre diferentes domínios da função sensorial em indivíduos com comprometimento neuropático. Os resultados demonstraram que a sensibilidade à dor mecânica apresentou correlação com a excitabilidade axonal, enquanto os limiares de dor ao calor mostraram dissociação em relação às respostas elétricas e aos níveis de neurofilamento leve (NfL). Esse padrão sugere que, apesar da preservação relativa da funcionalidade axonal, a percepção térmica pode estar seletivamente prejudicada na neuropatia diabética.
A caracterização detalhada desse panorama envolveu a aplicação metodológica do protocolo de testes sensoriais quantitativos (QST), combinada à estimulação elétrica de fibras C por despolarização lenta para avaliar a excitabilidade axonal direta. Adicionalmente, a análise laboratorial dos níveis plasmáticos de NfL foi integrada ao estudo como um indicador crítico de estresse axonal. A partir dessa abordagem multimodal, os indivíduos foram estratificados em quatro categorias funcionais: resposta sensorial normal, hiperalgesia térmica, hiperalgesia mecânica e perda sensorial.
O cruzamento desses perfis biológicos e funcionais revelou que, mesmo nos grupos com expressiva perda sensorial ao calor no QST, o tronco nervoso mantém sua capacidade de condução e excitabilidade quando estimulado eletricamente, consolidando o descompasso funcional na neuropatia diabética. Essa dissociação revela que a perda da percepção térmica pode se manifestar mesmo quando as vias nervosas subjacentes continuam responsivas. Isso indica um comprometimento seletivo nos mecanismos de transdução dos receptores periféricos, sem necessariamente implicar a destruição estrutural completa do nervo. Do ponto de vista clínico, essa preservação elétrica em áreas com redução da sensibilidade térmica reforça que diferentes componentes da função nervosa são afetados em tempos distintos ao longo do espectro da doença.
Referência: Eldesouky O, Seebauer L, Rukwied R, et al. Mismatch between intact electrical excitability and lost heat pain in diabetic neuropathy. Pain. 2026;167(5):1146-1156. doi:10.1097/j.pain.0000000000003898
Escrito por Mariana Lôbo Moreira.
9. Splicing Alternativo Regula a Sensibilidade Mecânica do Canal Iônico Piezo 2
Pesquisadores
da Universidade de Duke identificaram o
mecanismo pelo qual diferentes versões do
canal iônico mecanossensível Piezo 2
apresentam sensibilidades distintas a forças
mecânicas. O estudo, publicado na revista
Cell Reports, demonstrou que o splicing
alternativo — um processo celular que gera
múltiplas variantes de uma proteína a partir
de um único gene — é responsável por modular
a resposta do Piezo 2 à tensão da membrana
celular. O achado principal revela que a
presença do éxon 35 é suficiente para
conferir ao canal uma alta sensibilidade à
tensão e um baixo limiar para a ativação por
indentação celular (pressão física sobre a
célula).
Para
investigar essa modulação, a equipe utilizou
técnicas avançadas de eletrofisiologia (patch-clamp)
combinadas com microscopia de contraste para
medir precisamente as respostas de
diferentes construções genéticas do Piezo2
humano expressas em células cultivadas em
laboratório. Ao adicionar ou remover
sistematicamente segmentos específicos (éxons)
da proteína, os cientistas mapearam quais
regiões estruturais influenciavam a função
do canal. Os resultados indicaram que,
enquanto a maioria dos éxons não altera
significativamente a sensibilidade à tensão,
a inclusão do éxon 35 aumenta a capacidade
do canal de responder a forças mecânicas
menores, o que é consistente com a sua
expressão preferencial em neurônios
sensoriais especializados em detectar o
toque leve.
As descobertas
explicam como uma única família de canais
iônicos pode mediar funções fisiológicas tão
diversas quanto a percepção do toque suave,
a propriocepção (consciência da posição
corporal) e a interocepção (monitoramento de
órgãos internos, como a expansão pulmonar).
Ao demonstrar que variantes fisiológicas do
Piezo 2 operam em diferentes faixas
dinâmicas de sensibilidade, o estudo fornece
uma base biofísica para entender a
especialização dos neurônios sensoriais. A
compreensão desses mecanismos estruturais
amplia o conhecimento sobre a transdução de
sinais mecânicos no sistema nervoso e pode
direcionar futuras pesquisas sobre
disfunções sensoriais e regulação da dor.
Referência:
Sindoni, M., Sharp, W., & Grandl, J. Piezo2
tension sensitivity and its modulation by
alternative splicing. Cell Reports.
2026;45:117521. DOI: https://doi.org/10.1016/j.celrep.2026.117521
Escrito por Paulo Gustavo Barboni Dantas
Nascimento.
10. Sensibilização central na fibromialgia mostra associação limitada com genes candidatos
Um estudo prospectivo de caso-controle conduzido no Centro de Investigação Clínica do Hospital Universitário de Clermont-Ferrand, na França, investigou a relação entre a sensibilização central e a genética em mulheres com fibromialgia. A pesquisa avaliou 201 pacientes com a síndrome e 40 voluntárias saudáveis pareadas por idade, com o objetivo de entender se a amplificação da dor no sistema nervoso central — principal característica da doença — possui determinantes genéticos diretos. Os pesquisadores identificaram que o limiar do reflexo de flexão nociceptivo (NFR), uma medida objetiva da percepção da dor, foi significativamente menor nas pacientes com fibromialgia, confirmando a presença da sensibilização central. No entanto, a análise de 60 variações genéticas em 48 genes candidatos não demonstrou uma associação robusta com essa característica clínica.
Para avaliar a sensibilização central, a equipe utilizou o NFR, que consiste em um reflexo espinal induzido por estímulos elétricos repetidos para quantificar a excitabilidade da via de dor. Adicionalmente, amostras de sangue foram coletadas para extração de DNA e genotipagem de polimorfismos de nucleotídeo único (SNPs) previamente sugeridos na literatura como relevantes para a dor crônica. Na análise inicial, o estudo encontrou associações estatísticas entre a fibromialgia e variações em genes específicos, como o TACR1 (receptor envolvido na transmissão de sinais de dor), IL-10 (citocina anti-inflamatória) e FAAH (enzima do metabolismo de endocanabinoides). Contudo, quando os dados foram submetidos a testes estatísticos mais rigorosos para evitar resultados falso-positivos, nenhuma relação significativa entre a sensibilização central e os genótipos selecionados pôde ser confirmada. O polimorfismo do gene COMT, frequentemente citado na fisiopatologia da doença, também não apresentou associação com o limiar de dor medido pelo NFR.
Os resultados indicam que, embora a sensibilização central seja um mecanismo primário comprovado na fibromialgia, sua base genética pode ser mais complexa do que a explicada pelos genes candidatos tradicionalmente estudados. Os autores concluem que a falta de associações significativas neste grupo não descarta a influência genética, mas sugere que variações isoladas têm um impacto limitado na manifestação da síndrome. A principal limitação do estudo é o tamanho da amostra, que pode não ter sido suficiente para detectar efeitos genéticos sutis. Os pesquisadores recomendam que investigações futuras explorem essa via fisiopatológica utilizando coortes maiores e com fenótipos clínicos mais detalhados, o que poderá auxiliar na compreensão dos mecanismos biológicos subjacentes à dor crônica generalizada.
Referência: Macian N, Dualé C, Delay M, Leray V, Pereira B, Renaud Y, Gloor V, Desmeules J, Pickering G. Relationship Between Central Sensitization and Genetic Polymorphisms—A Case–Control Study in Fibromyalgia. European Journal of Pain. 2026. DOI: 10.1002/ejp.70308 Escrito por Paulo Gustavo Barboni Dantas Nascimento. |