DOL - Dor On Line

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Edição de Maio de 2021 - Ano 21 - Número 250

 

 

Divulgação Científica

 

1. Distanciamento social e o aumento da intensidade da dor crônica

A pandemia da COVID-19 alterou significativamente a vida dos indivíduos com a imposição do distanciamento social como ferramenta para conter a transmissão do vírus. Considerando que as conexões sociais desempenham um papel importante na modulação da dor crônica, estudos sugerem que os pacientes com esse quadro podem desenvolver agravamentos na saúde física e mental devido às novas restrições.

Posto isso, com o intuito de mensurar o impacto do isolamento social na dor crônica, realizou-se um estudo observacional de coorte transversal em Massachusetts entre 28 de abril até 22 de maio de 2020. Os 150 participantes selecionados responderam questões referentes ao grau de separação do convívio em sociedade, além da intensidade e interferência nas sensações dolorosas comparados com relatos anteriores e no decorrer do surto do coronavírus.

Observou-se que o sexo feminino, os não brancos, os de menor nível de escolaridade, os status de emprego para pessoas com deficiência e os pensamentos catastróficos com sentimentos negativos e de desamparo são fatores de risco para o aumento da intensidade da dor, em períodos de afastamento físico e social. Com isso, nota-se a grande extensão dessa problemática, sendo necessário priorizar estratégias focadas no público descrito.

Concluí-se que as restrições do contato social possuem diferentes impactos sobre pacientes com dor crônica. Para tratá-los, as intervenções e o desenvolvimento de novas abordagens devem considerar os sujeitos mais vulneráveis à dor, em caso de futuras ondas da doença.

Vale ressaltar a impossibilidade de extrapolar esses dados para populações mais amplas em virtude das características da amostra.

Referência: Hruschak V, Flowers KM, Azizoddin DR, Jamison RN, Edwards RR, Schreiber KL. Cross-sectional study of psychosocial and pain-related variables among patients with chronic pain during a time of social distancing imposed by the coronavirus disease 2019 pandemic. Pain. 2021;162(2):619-629. doi:10.1097/j.pain.0000000000002128

Alerta submetido em 08/04/2021 e aceito em 13/05/2021.

Escrito por Ketley Paiva Cabral.

 

2. Circuncisão genital feminina como ritual de passagem e as repercussões na dor
Um rito de passagem para a feminilidade, comum em alguns países, tem por base a circuncisão genital feminina (CGF), a qual pode abranger a excisão da glande do clitóris, dos pequenos lábios e parte dos grandes lábios.

Alguns estudos se concentraram a estudar esse evento com o foco nas consequências para a função reprodutiva. Porém, um estudo divulgado na revista Pain, realizado com 14 mulheres Somalis-Canadenses, buscou investigar qual a repercussão na conexão entre o dano do nervo periférico e a dor neuropática crônica em mulheres com CGF.

As participantes da pesquisa passaram por algumas sessões para serem avaliadas. Na primeira sessão, foram feitas entrevistas qualitativas sobre suas experiências de vida diária, incluindo aquelas relacionadas ao prazer ou à dor. A segunda sessão foi composta por questionários (Questionário de Saúde Geral e Versão Resumida do Questionário McGill) e um exame quantitativo (Teste Sensorial Quantitativo dos Limiares de Pressão-dor) para avaliar a dor na região vulvar, aliado a vulvalgesiômetros - dispositivos aplicados manualmente que exercem uma força predeterminada.

As participantes relataram boa saúde na medida de autorrelato e uma pontuação baixa no Questionário de Saúde Geral, indicando uma sensação de bem-estar e uma falta geral de sofrimento psicológico no momento do teste. Relataram ainda baixos níveis de dor segundo a escala de McGill.

Já o Teste Sensorial Quantitativo dos Limiares de Pressão-dor revelou que todas as mulheres tinham pelo menos uma região vulvar com um limiar de dor muito baixo, e algumas mulheres possuindo dor em todas as regiões testadas da vulva. Os limiares de dor resultantes foram consistentes com os limiares de dor observados em mulheres com dor vulvar crônica.

Diante disso, os autores ressaltam que as medidas da dor e os testes mostraram uma predisposição à dor neuropática e baixos limiares de dor, ainda que pelo autorrelato não tenha evidenciado tais achados. A conclusão do estudo foi de que a percepção cultural do local onde foi realizado o estudo pode ter influenciado os resultados obtidos, pois em alguns países há uma visão transmitida de geração em geração de que a dor é necessária e intrínseca à natureza feminina. Assim, os autores sugerem que a análise da dor precisa considerar tais aspectos.

Referência: Perović M, Jacobson D, Glazer E, Pukall C, Einstein G. Are you in pain if you say you are not? Accounts of pain in Somali-Canadian women with female genital cutting. Pain. 2021 Apr 1;162(4):1144-1152. doi: 10.1097/j.pain.0000000000002121. PMID: 33105438.

Alerta submetido em 08/04/2021 e aceito em 13/05/2021.

Escrito por Anne Caroline Nunes Carmo.

 

3. O modelo biopsicossocial para o manejo da dor

A dor crônica (DC) é uma dor que persiste por mais de três meses, associada a incapacidades físicas, alterações de estado psicológico e contexto social. Aspectos emocionais, cognitivos e sociais medeiam a experiência subjetiva da dor. O Modelo Biopsicossocial tem foco no impacto da dor nos pacientes e nos que o rodeiam. Os aspectos biológicos influenciam nas alterações físicas, os fatores psicológicos influenciam na avaliação e percepção dos sinais fisiológicos, e os fatores sociais modelam as respostas comportamentais. Esse modelo seria mais eficaz para o tratamento da dor, pois leva em conta aspectos físicos, psicológicos e sociais. O objetivo do estudo foi avaliar os aspectos emocionais e de saúde mental ligados à sensibilização central, crenças disfuncionais, hábitos relacionados à percepção da DC e autopercepção do sono. Foi também oferecida uma aula sobre educação em dor. O estudo foi realizado em pacientes com dor crônica de uma Unidade Básica de Saúde de São Paulo. Foi encontrada uma amostra predominantemente sedentária, com sono ruim que apresentou pontuação acima da média no questionário de sensibilização central, e se considerou satisfeita com a exposição educativa. Nesse sentido foi abordada a importância do olhar biopsicossocial para o manejo da dor e a utilidade da educação sobre o tema.

Referências: Dionísio, GH, Salermo, VY, Padilha, A. Sensibilização central e crenças entre pacientes com dores crônicas em uma unidade de atenção primária de saúde. BrJP. 2020; 3(1): 42-47.doi:10.5935/2595-0118.20200010

Alerta produzido no âmbito da disciplina "Ação Multi-institucional de Divulgação Científica DOL - Dor On Line", do Programa de Pós-graduação em Ciências e Tecnologias em Saúde da Faculdade de Ceilândia, UnB e Programa de Pós-Graduação em Farmácia da UFBA.

Alerta submetido em 08/04/2021 e aceito em 13/05/2021.

Escrito por Paula Muniz Machado.

 

4. Eu sinto a sua dor! Desvendando a transferência social da dor e da analgesia

Nos últimos anos, a empatia tem sido um assunto bastante discutido, principalmente nas mídias digitais. É provável que você já tenha ouvido o seu youtuber favorito falando sobre a importância de sermos empáticos, principalmente em tempos de pandemia de coronavírus. O que muitos não sabem é que a empatia não é uma característica exclusivamente humana. Muitos animais possuem a capacidade de reagir àquilo que acontece com seus parceiros, reproduzindo sensações físicas e emoções. Um exemplo impressionante da empatia em camundongos é o fenômeno conhecido como transferência social da dor e da analgesia.

Em uma pesquisa recente, publicada na revista Science, que contou com a colaboração de pesquisadores dos Estados Unidos e do Japão, esse fenômeno foi estudado detalhadamente. Em um dos experimentos, os cientistas injetaram uma substância irritante chamada CFA na pata de um camundongo, que logo começou a demonstrar comportamentos de dor. O animal com dor foi então colocado em uma gaiola junto com outro camundongo que não havia sofrido qualquer tipo de manipulação; esse segundo animal foi chamado de camundongo observador. Após uma hora de interação na gaiola, o camundongo observador passou a manifestar comportamentos de dor com a mesma intensidade daquele que havia sido injetado com a substância irritante. Era como se, de alguma forma, o primeiro camundongo transferisse a sua dor para o companheiro observador.

Um segundo experimento demonstrou que o processo de transferência também acontece com a analgesia. Desta vez, dois camundongos receberam a substância irritante que provocava dor. Apenas um deles recebeu morfina, um analgésico opioide que reduz a dor causada pelo CFA. Como no experimento anterior, os dois animais foram colocados na mesma gaiola, onde interagiram por uma hora. Após a interação social, ambos os camundongos exibiam níveis similares de analgesia, ainda que nenhum tipo de tratamento tenha sido oferecido para o segundo animal.

A transferência social da dor e da analgesia já foi demonstrada por outros cientistas. A grande novidade desse trabalho é que os pesquisadores conseguiram mapear as áreas do encéfalo que estão envolvidas nesse intrigante fenômeno. Eles descobriram que a transferência é dependente de projeções neurais do córtex cingulado anterior para o núcleo accumbens. O córtex cingulado anterior é uma região importante para o sentimento de empatia, pois se comunica com outras partes do encéfalo que são responsáveis por regular nossas emoções. Já o núcleo accumbens é conhecido como o “centro do prazer”, exercendo funções relacionadas ao sentimento de recompensa, prazer, vício e medo.

Estudos experimentais como esse podem levar ao desenvolvimento de novas terapias para diversos transtornos psiquiátricos associadas ao déficit de empatia. Embora ainda estejamos longe de compreender os intrincados mecanismos envolvidos na empatia e na modulação da dor, essa pesquisa revela mais uma peça do quebra-cabeça que é o funcionamento da mente.

Referência: Smith ML, Asada N, Malenka RC. Anterior cingulate inputs to nucleus accumbens control the social transfer of pain and analgesia. Science. 2021;371(6525):153-159. doi:10.1126/science.abe3040

Alerta submetido em 20/04/2021 e aceito em 13/05/2021.

Escrito por Pedro Santana Sales Lauria.

 

5. Métodos que reduzem a dor e a ansiedade da punção venosa em crianças

Crianças costumam sentir dor, estresse, ansiedade e medo quando realizam procedimentos invasivos, como vacinas e coleta de sangue. Métodos não farmacológicos podem ser utilizados para o enfretamento da dor, com o intuito de desviar a atenção dos pacientes durante os procedimentos. Um estudo recente avaliou e comparou o efeito da realidade virtual, dos cartões de distração e de um dispositivo de vibração, sobre a dor e ansiedade de crianças de 7 a 12 anos, no momento da coleta sanguínea.

O estudo realizado na Turquia dividiu 142 crianças em quatro grupos: grupo controle; grupo que utilizou cartões de distração com estímulos visuais; grupo que utilizou a realidade virtual com um dispositivo de entrada sensorial e óculos 3D, proporcionando uma experiência multissensorial; e grupo que utilizou um dispositivo reutilizável em formato de abelha, gelado e que vibra no local da coleta. Todos os métodos foram utilizados no momento da coleta sanguínea. Os níveis de dor e ansiedade foram avaliados utilizando formulários descritivos, com escalas de FACES para que os participantes escolhessem a expressão facial que melhor representava sua dor e ansiedade no momento da coleta. As escalas foram medidas antes e depois dos procedimentos, e foram avaliadas pela pesquisadora e pelos responsáveis por meio dos relatos das crianças.

Os estudos demonstraram que o cartão de distração e a realidade virtual foram eficientes na redução da dor e da ansiedade, apresentando escores mais baixos que o grupo controle. Entretanto o dispositivo de vibração alcançou resultados ainda mais satisfatórios para redução da dor durante os procedimentos, em crianças de 7 a 9 anos de idade.

Conclui-se que os três métodos são eficazes, seguros e podem ser aplicados para reduzir a dor e a ansiedade de crianças no momento da coleta sanguínea. É possível que essas abordagens, que desviam a atenção da criança, sejam úteis também para o manejo da dor associada a outros procedimentos médicos.

Referências: Erdogan B, Aytekin Ozdemir A. The effect of three different methods on venipuncture pain and anxiety in children: Distraction cards, virtual reality, and Buzzy® (randomized controlled trial) [published online ahead of print, 2021 Jan 20]. J Pediatr Nurs. 2021;S0882-5963(21)00003-8. doi:10.1016/j.pedn.2021.01.001

Alerta produzido no âmbito da disciplina "Ação Multi-institucional de Divulgação Científica DOL - Dor On Line", do Programa de Pós-graduação em Ciências e Tecnologias em Saúde da Faculdade de Ceilândia, UnB e Programa de Pós-Graduação em Farmácia da UFBA.

Alerta submetido em 20/04/2021 e aceito em 13/05/2021.

Escrito por Lara Cristine da Silva Vieira.

 

 

Ciência e Tecnologia

 

 

6. Efeito analgésico e antiedematogênico do suco de Myrciaria dubia (camu-camu) em camundongos
A inflamação é um dos maiores mediadores das doenças crônicas mais comuns. Um dos mecanismos é a geração de espécies reativas de oxigênio, que pode modular a dor direta ou indiretamente. Levando em consideração a necessidade de tratamento contínuo dessas doenças, a utilização de nutracêuticos pode ser interessante, pois muitos bioativos são capazes de neutralizar o estresse oxidativo.

Dentro desse contexto, o estudo realizado em Rondônia com suco de camu-camu (Myrciaria dubia) objetivou avaliar o potencial antinociceptivo e anti-inflamatório em camundongos. A avaliação de bioativos demonstrou uma quantidade expressiva de ácido ascórbico, que é um agente antioxidante, além da presença de ácido elágico e rutina, que são compostos fenólicos.

No teste de formalina foi realizado um estímulo álgico nos camundongos em três grupos: o grupo controle, o grupo com administração oral de ácido ascórbico e o de suco a 50% (Md50). Os dois últimos grupos apresentaram efeito antinociceptivo significativo. Na avaliação da dor induzida termicamente, o grupo Md50 também se mostrou resistente em comparação ao grupo controle.

No modelo de dor inflamatória crônica de origem imune demonstrou um efeito antiedematogênico significativo do Md50, que pode ser atribuído aos compostos fenólicos, pois a administração de ácido ascórbico não demonstrou o mesmo efeito. O tratamento com Md50 mostrou diminuição da infiltração de neutrófilos e macrófagos, demonstrando ação anti-inflamatória.

Os efeitos antinociceptivos e anti-inflamatórios podem estar relacionados à quantidade de ácido ascórbico e presença de rutina e ácido elágico no suco de camu-camu, porem esses mecanismos precisam ser mais bem elucidados.

Referências: da Silva FC, de Souza AH, Bassoli BK, et al. Myrciaria dubia Juice (camu-camu) Exhibits Analgesic and Antiedematogenic Activities in Mice [published online ahead of print, 2020 Dec 18]. J Med Food. 2020;10.1089/jmf.2020.0094. doi:10.1089/jmf.2020.0094

Alerta produzido no âmbito da disciplina "Ação Multi-institucional de Divulgação Científica DOL - Dor On Line", do Programa de Pós-graduação em Ciências e Tecnologias em Saúde da Faculdade de Ceilândia, UnB e Programa de Pós-Graduação em Farmácia da UFBA.

Alerta submetido em 08/04/2021 e aceito em 13/05/2021.

Escrito por Giovanna Oliveira de Brito.

 

7. Fatores associados ao desenvolvimento de dor moderada a grave após artroplastia total do joelho

A artroplastia total do joelho (ATJ) é uma cirurgia comumente realizada para artrite avançada do joelho. É considerado um procedimento de grande sucesso, apesar de que cerca de 20% dos pacientes permanecem com dor em longo prazo após a cirurgia. Assim como em outras cirurgias, a intensidade e o nível de controle da dor aguda pós-cirúrgica podem influenciar significativamente tanto na recuperação, quanto no desenvolvimento de dor crônica pós-cirúrgica. Desta forma, pesquisadores da Espanha investigaram possíveis fatores associados a níveis maiores de dor após ATJ, a fim de aperfeiçoar o tratamento e identificar pacientes com risco de desenvolver dor após a cirurgia.

O estudo publicado em janeiro de 2021 avaliou fatores associados ao desenvolvimento de dor aguda pós-operatória moderada a intensa em pacientes submetidos à ATJ. Foram utilizados dados demográficos e clínicos (como sexo, idade, peso, altura, comorbidades, modalidade de anestesia, uso de analgésicos, entre outros) e também foram incluídos os relatos de dor crônica antes da admissão no hospital e o questionário International Pain Outcomes (que avaliou a severidade e interferência da dor em atividades, efeitos adversos e a percepção do cuidado). Os dados obtidos foram então correlacionados com a presença de dor leve, moderada ou grave. Usando um modelo de regressão logística multivariada, foram correlacionados ao desenvolvimento de dor aguda pós-operatória moderada a grave os seguintes fatores: presença de dor crônica pré-operatória, uso de anestesia geral, utilização de opioides antes da cirurgia ou no pós-operatório. No entanto, a interpretação desses dados no estabelecimento da relação causa consequência merece cautela. Enquanto a dor crônica e o consumo de opioides antes da cirurgia podem refletir uma maior gravidade da doença e a presença de sensibilização nociceptiva, o uso de opioides no pós-operatório pode também se dar justamente em decorrência da dor mais intensa, sendo uma consequência, e não causa, dos maiores níveis de dor.

Por outro lado, chama atenção o impacto da modalidade de anestesia na intensidade da dor aguda pós-operatória: a anestesia geral apareceu como um determinante para a dor moderada à grave. Corroborando essa observação, dados da literatura já mostraram que a anestesia regional melhora a dor perioperatória, reduz a medicação para dor com opioides e promove uma reabilitação mais curta em pacientes com ATJ. Em conjunto, esses achados reforçam a importância da escolha criteriosa entre anestesia regional ou geral na artroplastia total do joelho.

Este estudo evidencia fatores que merecem ser avaliados com atenção e que devem ser considerados no perioperatório, visando a otimização de protocolos clínicos que reduzam a intensidade da dor pós-operatória.

Referências: García-López J, Polanco-García M, Montes A. Factors Associated With the Risk of Developing Moderate to Severe Acute Postoperative Pain After Primary Total Knee Arthroplasty: Results From the PAIN OUT Registry [published online ahead of print, 2021 Feb 6]. J Arthroplasty. 2021;S0883-5403(21)00131-5. doi:10.1016/j.arth.2021.02.005

Alerta submetido em 20/04/2021 e aceito em 13/05/2021.

Escrito por Luiza Carolina França Opretzka.

 

8. Associação de estressores no início da vida com a sensibilidade à dor no adulto jovem

O início da vida é um momento crítico para o desenvolvimento. Neste período, a atuação de estressores pode influenciar no desenvolvimento do sistema neurológico. Algumas condições socioambientais podem ser consideradas como estressores durante a infância, por exemplo, exposição ao tabagismo, estrutura familiar precária, condições financeiras ruins e carência de leite materno.

Com objetivo de compreender mais sobre a influência do estresse precoce na sensibilidade à dor no futuro, pesquisadores da Universidade de Curtin, na Austrália, analisaram a interação entre o limiar de dor em adultos jovens com a exposição a estressores durante o início da vida, incluindo o período gestacional. Os participantes selecionados para o estudo foram acompanhados desde a vida intrauterina até os 22 anos, período no qual os testes sensoriais foram realizados para avaliar o limiar de dor ao frio e à pressão.

Neste sentido, foi observado que aqueles participantes que apresentaram estrutura familiar mais precária no início da vida exibiram maior sensibilidade à dor pelo frio quando adultos. Além disso, nos participantes que relataram aos 22 anos experiência com dor moderada a severa, o aumento da sensibilidade dolorosa ao frio foi ainda maior. Curiosamente, as crianças cujos pais relataram comportamento problemático apresentaram menor sensibilidade à dor por estímulo de pressão quando adultos.

Diante do que foi encontrado, é possível propor que de fato o estresse na infância pode influenciar a percepção de dor no adulto. Isso ressalta a importância de um ambiente seguro e harmonioso para garantir o desenvolvimento saudável. Uma maior compreensão de como os fatores socioambientais podem influenciar a sensibilidade à dor pode oferecer oportunidades para uma melhor abordagem, a fim de reduzir o impacto da dor na saúde pública.

Referência: Waller R, Smith AJ, OSullivan PB, Slater H, Sterling M, Straker LM. The association of early life stressors with pain sensitivity and pain experience at 22 years. Pain. 2020 Jan;161(1):220-229. doi: 10.1097/j.pain.0000000000001704. PMID: 31568044.

Alerta produzido no âmbito da disciplina "Ação Multi-institucional de Divulgação Científica DOL - Dor On Line", do Programa de Pós-graduação em Ciências e Tecnologias em Saúde da Faculdade de Ceilândia, UnB e Programa de Pós-Graduação em Farmácia da UFBA.

Alerta submetido em 20/04/2021 e aceito em 13/05/2021.

Escrito por Larissa Santana de Jesus.

 

9. A modulação do receptor opioide produz analgesia e apresenta efeitos colaterais reduzidos

Os opioides que agem no receptor µ-opioide (MOR) são considerados a revolução para o alívio da dor. Infelizmente, essas drogas têm efeitos colaterais graves, incluindo dependência química e depressão respiratória.

Sempre se especulou que os moduladores alostéricos positivos (PAMs) dos MOR eram analgésicos potencialmente mais seguros do que os opioides tradicionais, entretanto essa hipótese nunca foi testada. Tal segurança se daria devido aos PAMs serem capaz de promoverem a ação de peptídeos opioides endógenos, o que preservaria seus padrões de liberação temporal e, portanto, apresentariam uma maior eficiência do índice terapêutico.

Devido a isso, o grupo de pesquisa da Universidade de Michigan, sob comando do Professor Dr. John Traynor, mostrou que um µ-PAM, denominado BMS-986122, foi capaz de aumentar a capacidade de um opioide endógeno, a Metionina-encefalina (Met-Enk), em estimular a atividade de proteínas G e levar a uma ativação dessas proteínas G em células de camundongos e hamsters. Além disso, o BMS-986122 aumentando a potência da Met-Enk, levou à inibição da liberação de GABA na região cerebral chamada de substância cinzenta periaquedutal, região importante para a antinocicepção.

O efeito de antinocicepção dos µ-PAM também foram avaliados em modelos de dor aguda e inflamatória em camundongos. Os resultados obtidos pelo grupo mostraram que µ-PAMs in vivo aumentam a atividade de peptídeos opioides endógenos. Sendo assim, os resultados do estudo de Kandasamy e colaboradores são consistentes com a hipótese de que o BMS-986122 aumenta a atividade antinociceptiva de peptídeos opioides endógenos in vivo e, portanto, torna-se uma alternativa para novas ações analgésicas em dores em humanos. Outro ponto destacado no estudo é de que os µ -PAMs podem proporcionar antinocicepção sem a necessidade de uso de drogas opioides tradicionais, que geram diversos efeitos colaterais. E como o BMS-986122 não tem ação agonista direta em níveis expressos endogenamente de MOR, ele produz um nível reduzido de efeitos colaterais.

Tomados em conjunto, os resultados do estudo do grupo apoiam um raciocínio para investigação adicional e avaliação de segurança adicional de µ -PAMs, em particular, efeitos colaterais indesejados e estudos em combinação com drogas opioides, para o tratamento da dor como substitutos eficazes para os analgésicos opioides, que possuem elevado potencial de abuso.

Referência: Positive allosteric modulation of the mu-opioid receptor produces analgesia with reduced side effects. Ram Kandasamya , Todd M. Hillhousea, Kathryn E. Livingstona, Kelsey E. Kochana, Claire Meuricea, Shainnel O. Eansd, Ming-Hua Lie, Andrew D. Whitef, Bernard P. Roquesg, Jay P. McLaughlind, Susan L. Ingrame, Neil T. Burfordh, Andrew Alta and John R. Traynora

Alerta submetido em 29/04/2021 e aceito em 13/05/2021.

Escrito por Alexandre Gomes de Macedo Maganin.

 

10. Aceitação da dor crônica como preditor para a progressão do tratamento em pacientes com espondilite anquilosante

A espondilite anquilosante (EA) é uma doença inflamatória crônica que afeta frequentemente a articulação do quadril e da coluna vertebral. Apresenta como principais manifestações clínicas como rigidez matinal, limitação de mobilidade, inflamação dos tendões e da íris. A dor é caracterizada como mista, pois envolve componentes nociceptivos e neuropáticos. Por este motivo, os pacientes podem ter ansiedade, depressão, medo do movimento e limitação da função. Assim, desenvolver estratégias de aceitação da dor crônica se faz importante para a progressão do tratamento. Para o indivíduo, aceitar a dor ajuda na redução de problemas psicológicos e físicos. Para a equipe de saúde, esta estratégia é útil para estratificar pacientes e tomar decisões personalizadas. Neste sentido, pesquisadores chineses realizaram um estudo com a finalidade de investigar a correlação entre aceitação da dor crônica, bem como explorar seu papel para tratamento biológico. Primeiramente, uma população de 167 pessoas com EA responderam os questionários BASDAI (Índice de Atividade de Doença da EA de Bath); BASFI (Índice Funcional de EA de Bath); CPAQ (Questionário de Aceitação da Dor Crônica); HADS (Escala Hospitalar de Ansiedade e Depressão) e JSK (Escala de Tampa para cinesiofobia). CPAQ se correlacionou com ansiedade, depressão, TSK, BASFI e intensidade da dor. Em seguida, outros 68 indivíduos iniciaram o tratamento com um anticorpo contra o fator de necrose tumoral (anti-TNF) para explorar a aceitação da dor crônica para tratamento biológico. Foram divididos em 4 subgrupos, de acordo com o CPAQ e PCR (proteína C-reativa). Três meses após iniciar o anti-TNF, foi constatado que os pacientes com alto CPAQ e PCR tiveram a variação do BASDAI mais alta, enquanto aqueles com baixo CPAQ e PCR tiveram a variação mais baixa. Esta pesquisa é a primeira que aborda a importância da aceitação da dor crônica em pacientes com EA. Saber o nível de aceitação da dor permite que a equipe de saúde forneça serviços psicológicos e tratamentos prontamente, tanto farmacológicos como terapias alternativas.

Referência: Li T, Liu Y, Sheng R, Yin J, Wu X, Xu H. Correlation Between Chronic Pain Acceptance and Clinical Variables in Ankylosing Spondylitis and Its Prediction Role for Biologics Treatment. Front Med (Lausanne). 2020;7:17. Published 2020 Jan 31. doi:10.3389/fmed.2020.00017

Alerta produzido no âmbito da disciplina "Ação Multi-institucional de Divulgação Científica DOL - Dor On Line", do Programa de Pós-graduação em Ciências e Tecnologias em Saúde da Faculdade de Ceilândia, UnB e Programa de Pós-Graduação em Farmácia da UFBA.

Alerta submetido em 10/05/2021 e aceito em 13/05/2021.

Escrito por Vanessa de Souza Panarari Bolonheis.