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Edição de Outubro de 2026 - Ano 27 - Número 315

 

 

Divulgação Científica

 

1. Estudo descobre forte dependência de síntese de óxido nítrico endotelial na hipersensibilidade tátil e vasodilatação em modelo experimental de enxaqueca

Esse estudo investigou o envolvimento do óxido nítrico na resposta ao ativador do canal de potássio sensível ao trifosfato de adenosina e seu envolvimento na cefaleia e hipersensibilidade tátil em camundongos. O objetivo da pesquisa foi investigar os mecanismos envolvidos na hipersensibilidade relacionada à enxaqueca causada pela abertura dos canais KATP, com foco nas enzimas óxido nítrico sintase e no estresse nitrosativo.

Os pesquisadores realizaram experimentos em camundongos provocando sensibilidade através da aplicação de levcromakalim, avaliando as reações estimuladas e alterações relacionadas ao óxido nítrico. Para identificação exata do processo, compararam camundongos normais com animais geneticamente modificados, que não produziam algumas formas da enzima específica do óxido nítrico, e testaram bloqueadores químicos direcionados. Os resultados mostraram que ao inibirem a produção de óxido nítrico, não houve desenvolvimento da hipersensibilidade.

O óxido nítrico impulsiona a hipersensibilidade tátil induzida pela abertura de canais de potássio sensíveis a ATP em camundongos. O estudo concluiu que o aumento da produção de óxido nítrico e peroxinitrito na dura-máter, promove um estresse nitro-oxidativo que contribui para mecanismos semelhantes aos da enxaqueca.

Referências: Rasmussen RH, Ernstsen C, Holm A, et al. De novo nitric oxide synthesis drives tactile hypersensitivity induced by ATP-sensitive potassium channel opening in mice: relevance to migraine and other headache disorders. Pain. 2026;167(7):e222-e243. doi:10.1097/j.pain.0000000000003955

Escrito por Jennifer Mendes Alexandre e Amanda Rafaela Câmara Bernardes Freitas dos Santos.

 

2. Dor persistente e adversidades na infância estão associadas a mudanças no desenvolvimento cerebral
Crianças com dor persistente ou recorrente e experiências adversas no início da vida apresentaram alterações no desenvolvimento cerebral. O estudo analisou 1.671 crianças participantes do estudo ABCD, nos Estados Unidos, com dados coletados entre 2018 e 2023. Os pesquisadores avaliaram exames de ressonância magnética realizados no início e após dois anos de acompanhamento. O objetivo foi investigar os efeitos combinados da dor e das adversidades sobre o cérebro durante o desenvolvimento infantil. Os resultados mostraram alterações mais acentuadas em algumas regiões cerebrais nas crianças expostas às duas condições.

Os pesquisadores analisaram dados de crianças acompanhadas durante dois anos, divididas em grupos conforme a presença de dor persistente ou recorrente e de adversidades no início da vida. As informações sobre dor e experiências adversas foram obtidas por relatos dos responsáveis, enquanto exames de ressonância magnética permitiram avaliar diferentes regiões cerebrais. Os resultados foram comparados por meio de análises estatísticas, considerando as mudanças observadas ao longo do acompanhamento de forma longitudinal.

A combinação entre dor persistente ou recorrente e adversidades no início da vida esteve associada a alterações em regiões cerebrais relacionadas à dor e às emoções. Os achados reforçam a importância de considerar essas experiências durante o desenvolvimento infantil. Entretanto, o estudo não permite afirmar que essas condições sejam a causa direta das alterações observadas.

Referências: Lim TE, Humburg P, Reay WR, Gustin SM, Quidé Y. Cumulative impacts of early-life interpersonal adversity and persistent/recurrent pain in children: a longitudinal normative modelling study from the ABCD study cohort. Pain. 2026;167(8):e301-e311. doi:10.1097/j.pain.0000000000003995.

Escrito por Flávia Gabrielle de Castro Pereira.

 

3. O medo do retorno do câncer pode aumentar a dor em sobreviventes jovens

Um estudo longitudinal com 111 mulheres jovens sobreviventes de câncer de mama e ginecológico mostrou que o medo da recorrência do câncer prevê o aumento da dor e da fadiga ao longo do tempo. A pesquisa acompanhou participantes de 18 a 39 anos em três avaliações, com intervalos de dois meses, e descobriu que para uma mesma pessoa, quando o medo de o câncer voltar aumentava, a dor tendia a piorar no período seguinte. O inverso não foi observado, ou seja, a dor não previu o aumento do medo. O estudo, publicado na revista Pain em julho de 2026, foi conduzido com sobreviventes que já haviam concluído o tratamento curativo.

Os pesquisadores usaram um modelo estatístico chamado painel com defasagem cruzada, que permite avaliar a direção das relações ao longo do tempo. A dor e a fadiga foram medidas por uma versão adaptada da Memorial Symptom Assessment Scale (MSAS), enquanto o medo da recorrência foi avaliado pelo Inventário de Medo da Recorrência do Câncer. Os resultados mostraram que o medo da recorrência foi um preditor significativo do aumento da dor e fadiga, mas a dor não predisse o medo.

O medo de que o câncer volte pode ser um fator que antecede e intensifica a dor e o cansaço em sobreviventes jovens. Isso sugere que intervenções psicológicas voltadas a reduzir esse medo podem também aliviar sintomas físicos crônicos. Como limitação, o estudo teve amostra relativamente pequena e acompanhamento de apenas quatro meses, sendo necessários estudos mais longos para confirmar os achados.

Referência: SWEENEY, Louise et al. Cross-lagged longitudinal analysis of pain and fear of cancer recurrence in young female survivors of breast and gynaecological cancers. Pain, [S. l.], v. 167, n. 7, p. 1569-1577, 1 jul. 2026. DOI: 10.1097/j.pain.0000000000003951.

Escrito por Rebeca Vitória Marques Rocha.

 

4. Diferentes tipos de sons do cotidiano conseguem alterar a dor de pessoas com fibromialgia? Um ensaio clínico randomizado

Pesquisadores da Universidade de Granada, na Espanha, investigaram se diferentes ambientes acústicos do cotidiano poderiam influenciar a experiência da dor em pessoas com síndrome de fibromialgia. A pesquisa foi realizada entre agosto e outubro de 2025, com 88 participantes expostos a quatro condições acústicas (ambiente natural, ambiente urbano, ruído de banda larga e silêncio) durante quatro sessões realizadas ao longo de quatro semanas. Os resultados mostraram que o ambiente urbano aumentou a intensidade e a sensibilidade à dor, enquanto o ambiente natural apresentou resultados parecidos com as condições de controle.

Para avaliar os efeitos dos ambientes acústicos, foi realizado um ensaio clínico randomizado, triplo-cego, controlado por placebo e com desenho crossover 4x4 de Williams. Em cada sessão os participantes permaneceram expostos a uma das condições acústicas durante 20 minutos. A intensidade da dor foi avaliada por uma escala visual analógica, enquanto a sensibilidade à dor foi investigada por testes sensoriais quantitativos, incluindo sensibilidade mecânica, somação temporal, limiar de dor à pressão e intensidade da dor à pressão. A análise estatística utilizou modelos lineares de efeitos mistos para comparar as condições. O ambiente urbano apresentou maior intensidade da dor, maior sensibilidade mecânica, menor limiar de dor à pressão e maior intensidade de dor à pressão. A somação temporal não apresentou diferenças significativas.

Os resultados sugerem que os ambientes acústicos podem ser fatores ambientais importantes na experiência da dor crônica. Desta forma, os pesquisadores apontam que os ambientes acústicos podem ser utilizados em futuras estratégias de manejo da dor, embora ainda sejam necessários outros estudos que avaliem exposições mais prolongadas e em situações próximas do cotidiano.

Referências: Gungormus, D. B., & Pérez-Mármol, J. M. (2026). The impact of everyday acoustic environments on chronic pain mechanisms in fibromyalgia: a randomized, triple-blind, placebo-controlled 4 × 4 crossover trial. Pain, 167(8), 1941–1957. https://doi.org/10.1097/j.pain.0000000000004042 https://journals.lww.com/pain/fulltext/10.1097/j.pain.0000000000003951~cross-lagged-longitudinal-analysis-of-pain-and-fear-of

Escrito por Letícia Gomes de Araújo.

 

5. Falha na limpeza de células mortas por macrófagos agrava a dor neuropática

Pesquisadores do MD Anderson Cancer Center revelaram um novo mecanismo neuroimune que contribui para o desenvolvimento da dor neuropática após lesão de nervos periféricos. O estudo, publicado na revista PNAS, demonstrou que a lesão nervosa induz a quebra (clivagem proteolítica) do MERTK, um receptor de superfície presente em macrófagos. A redução deste receptor prejudica a eferocitose — o processo pelo qual os macrófagos limpam células mortas (apoptóticas e necroptóticas) do local da lesão. O achado principal indica que o acúmulo desses detritos celulares não removidos desencadeia uma sinalização pró-inflamatória prolongada que exacerba o dano aos axônios e aumenta a excitabilidade dos neurônios sensoriais, facilitando a dor crônica.

Para investigar esse processo, a equipe utilizou camundongos geneticamente modificados para expressar uma versão do receptor MERTK resistente à clivagem. Após a indução de lesão no nervo ciático, os animais com a mutação protetora apresentaram menor acúmulo de células mortas no local da lesão, redução na polarização de macrófagos para um perfil inflamatório e menor dano à bainha de mielina dos nervos. Consequentemente, esses camundongos demonstraram atenuação significativa nos comportamentos associados à dor neuropática, como a alodinia mecânica (dor causada por estímulos leves) e a hiperalgesia térmica. A análise celular revelou ainda que a preservação do MERTK evitou a hiperatividade de neurônios sensoriais específicos (TRPV1+) no gânglio da raiz dorsal.

Os resultados explicam por que os processos imunológicos de resolução, que normalmente encerram a inflamação e promovem o reparo tecidual, falham no contexto da dor neuropática. A incapacidade de limpar os corpos celulares resulta na liberação de moléculas associadas a dano (DAMPs) e na produção de autoanticorpos (IgG), que mantêm a sensibilização do sistema nervoso. Ao identificar a clivagem do MERTK em macrófagos como um regulador central da sinalização neuroimune prejudicial, o estudo destaca a eferocitose como um alvo terapêutico inexplorado. Intervenções capazes de restaurar a capacidade de limpeza dos macrófagos podem acelerar a recuperação após lesões nervosas e oferecer novas abordagens para o tratamento da dor crônica debilitante.

Referência: Pandey, V. K., Acharya, T. K., Wilcox, K. F., Dembla, S., Ramanujan, A., Grieco, A. R., Zuberi, Y. A., Mahalingam, R., Shepherd, A. J., Heijnen, C. J., & Grace, P. M. Peripheral nerve injury reduces macrophage efferocytosis to facilitate neuropathic pain. PNAS. 2026;123(1):e2511401122. DOI: https://doi.org/10.1073/pnas.2511401122

Escrito por Paulo Gustavo Barboni Dantas Nascimento.

 

 

Ciência e Tecnologia

 

 

6. O tratamento simultâneo da dor crônica e dos sintomas relacionados ao trauma é eficaz? Uma revisão sistemática e metanálise de intervenções psicológicas
Pesquisadores da Universidade de Toronto e instituições afiliadas no Canadá, investigaram a eficácia de intervenções psicoterapêuticas para adultos que sofrem ao mesmo tempo de dor crônica e sintomas relacionados a traumas. O estudo juntou dados de 18 ensaios clínicos randomizados de 5 bancos de dados, abrangendo pesquisas publicadas até outubro de 2025, com o objetivo de isolar e avaliar o impacto da psicoterapia nesses pacientes. Os resultados revelaram que as intervenções psicológicas, incluindo a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e terapias focadas no trauma, foram capazes de reduzir de forma pequena a moderada a intensidade e interferência da dor no dia a dia e os sintomas de trauma imediatamente após o tratamento. A análise também comprovou que esses efeitos benéficos se mantiveram consistentes em avaliações de acompanhamento realizadas de três a seis meses após o término das intervenções.

Para avaliar se as intervenções psicoterapêuticas são eficazes em pacientes com dor crônica e/ou que passaram por situações traumáticas, foi realizada uma revisão sistemática com metanálise de ensaios clínicos randomizados. A pesquisa foi conduzida de acordo com as diretrizes PRISMA e utilizou a ferramenta Cochrane Risk of Bias 2 (RoB 2) para avaliar o risco de viés dos estudos selecionados. Os estudos elegíveis incluíram: adultos com 18 anos ou mais que apresentavam dor crônica; indivíduos com exposição e sintomas relacionados a traumas (definidos por relato de exposição, diagnóstico ou histórico de Transtorno de Estresse Pós-Traumático [TEPT] e histórico de abuso ou negligência infantil); desfechos validados para dor ou sintomas associados; e a avaliação dos efeitos de intervenções psicológicas.

A análise combinada dos estudos revelou que as intervenções psicológicas são eficazes para tratar simultaneamente a dor crônica e os sintomas de trauma. Os benefícios se mostraram presentes logo após o fim das sessões e se mantiveram consistentes meses depois. Desta forma, os resultados reforçam a importância de uma abordagem integrada, considerando a relação entre a dor crônica e os sintomas relacionados ao trauma, uma vez que essas condições podem influenciar e se manter mutuamente. Entretanto, ainda não é possível estabelecer uma modalidade psicológica específica como tratamento padrão. Por fim, faz-se necessários estudos mais robustos, com amostras maiores, metodologias mais rigorosas e grupos-controle ativos, que permitam identificar quais intervenções são mais eficazes e quais pacientes podem se beneficiar mais desses tratamentos.

Referências: Rosenbloom, B. N., Curtis, K., Williams, C., Slepian, P. M., McCarthy, M., Flynn, M., Nella, A., Kim, A., Siegal, R., Englesakis, M., Ladha, K. S., Di Renna, T., & Bosma, R. (2026). Is treating both chronic pain and trauma-related symptoms at the same time effective? A systematic review and meta-analysis of psychological interventions. PAIN, 167(7), e207-e221.

Escrito por Isabele Duarte, Danielle Jesus, Carolina Andrade e Letícia Gomes.

 

7. Além da bexiga - novos mecanismos envolvidos na dor vesical persistente

Pesquisadores investigaram o papel dos receptores do peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP) na amígdala durante o desenvolvimento da dor vesical persistente em camundongos. O estudo avaliou a participação dessa via de sinalização em um modelo experimental de dor visceral, com o objetivo de compreender o envolvimento de mecanismos centrais na manutenção desse estado. A investigação concentrou-se na amígdala, uma estrutura encefálica envolvida na modulação da dor, buscando compreender como a sinalização mediada por CGRP nessa região influencia na persistência da dor vesical.

Antagonistas dos receptores de CGRP foram administrados de forma direcionada na amígdala, permitindo o bloqueio localizado dessa sinalização. Os efeitos dessa intervenção foram avaliados por meio de comportamentos relacionados à dor vesical, possibilitando comparar o impacto da inibição dessa via sobre o quadro persistente. Adicionalmente, foram avaliados parâmetros relacionados à ativação dessa sinalização na amígdala, permitindo associar as respostas comportamentais à participação dessa região na modulação da dor.

A ativação dos receptores de CGRP na amígdala esteve associada à manutenção das respostas relacionadas à dor vesical, enquanto o bloqueio farmacológico dessa via reduziu esses comportamentos nos animais. Esses resultados demonstram que a sinalização mediada por CGRP nessa região apresenta relevância funcional na regulação da dor vesical persistente. O estudo destaca a participação da amígdala na modulação da dor, evidenciando uma via central específica envolvida na sustentação desse quadro.

Referência: Lewter, L. A., Paul, B. K., Salazar, A. M., Chatterjee, U., Pham, H. P. T., Khan, M. Z., Schmitz, A. E., Nofal, A. M., Hussein, M. M., Mysorekar, I. U., & Kolber, B. J. (2025). The role of amygdala calcitonin gene-related peptide receptors on the development of persistent bladder pain in mice. bioRxiv : the preprint server for biology, 2025.06.10.658965. https://doi.org/10.1101/2025.06.10.658965

Escrito por Mariana Lôbo Moreira.

 

8. Dissociação entre excitabilidade elétrica preservada e perda de sensibilidade térmica na neuropatia diabética

O estudo de avaliação sensorial em pacientes com neuropatia diabética, conduzido por meio de abordagens multimodais que combinaram testes quantitativos de sensibilidade e estimulação elétrica direcionada a fibras aferentes, investigou a relação entre diferentes domínios da função sensorial em indivíduos com comprometimento neuropático. Os resultados demonstraram que a sensibilidade à dor mecânica apresentou correlação com a excitabilidade axonal, enquanto os limiares de dor ao calor mostraram dissociação em relação às respostas elétricas e aos níveis de neurofilamento leve (NfL). Esse padrão sugere que, apesar da preservação relativa da funcionalidade axonal, a percepção térmica pode estar seletivamente prejudicada na neuropatia diabética.

A caracterização detalhada desse panorama envolveu a aplicação metodológica do protocolo de testes sensoriais quantitativos (QST), combinada à estimulação elétrica de fibras C por despolarização lenta para avaliar a excitabilidade axonal direta. Adicionalmente, a análise laboratorial dos níveis plasmáticos de NfL foi integrada ao estudo como um indicador crítico de estresse axonal. A partir dessa abordagem multimodal, os indivíduos foram estratificados em quatro categorias funcionais: resposta sensorial normal, hiperalgesia térmica, hiperalgesia mecânica e perda sensorial.

O cruzamento desses perfis biológicos e funcionais revelou que, mesmo nos grupos com expressiva perda sensorial ao calor no QST, o tronco nervoso mantém sua capacidade de condução e excitabilidade quando estimulado eletricamente, consolidando o descompasso funcional na neuropatia diabética. Essa dissociação revela que a perda da percepção térmica pode se manifestar mesmo quando as vias nervosas subjacentes continuam responsivas. Isso indica um comprometimento seletivo nos mecanismos de transdução dos receptores periféricos, sem necessariamente implicar a destruição estrutural completa do nervo. Do ponto de vista clínico, essa preservação elétrica em áreas com redução da sensibilidade térmica reforça que diferentes componentes da função nervosa são afetados em tempos distintos ao longo do espectro da doença.

Referência: Eldesouky O, Seebauer L, Rukwied R, et al. Mismatch between intact electrical excitability and lost heat pain in diabetic neuropathy. Pain. 2026;167(5):1146-1156. doi:10.1097/j.pain.0000000000003898

Escrito por Mariana Lôbo Moreira.

 

9. Splicing Alternativo Regula a Sensibilidade Mecânica do Canal Iônico Piezo 2

Pesquisadores da Universidade de Duke identificaram o mecanismo pelo qual diferentes versões do canal iônico mecanossensível Piezo 2 apresentam sensibilidades distintas a forças mecânicas. O estudo, publicado na revista Cell Reports, demonstrou que o splicing alternativo — um processo celular que gera múltiplas variantes de uma proteína a partir de um único gene — é responsável por modular a resposta do Piezo 2 à tensão da membrana celular. O achado principal revela que a presença do éxon 35 é suficiente para conferir ao canal uma alta sensibilidade à tensão e um baixo limiar para a ativação por indentação celular (pressão física sobre a célula).

Para investigar essa modulação, a equipe utilizou técnicas avançadas de eletrofisiologia (patch-clamp) combinadas com microscopia de contraste para medir precisamente as respostas de diferentes construções genéticas do Piezo2 humano expressas em células cultivadas em laboratório. Ao adicionar ou remover sistematicamente segmentos específicos (éxons) da proteína, os cientistas mapearam quais regiões estruturais influenciavam a função do canal. Os resultados indicaram que, enquanto a maioria dos éxons não altera significativamente a sensibilidade à tensão, a inclusão do éxon 35 aumenta a capacidade do canal de responder a forças mecânicas menores, o que é consistente com a sua expressão preferencial em neurônios sensoriais especializados em detectar o toque leve.

As descobertas explicam como uma única família de canais iônicos pode mediar funções fisiológicas tão diversas quanto a percepção do toque suave, a propriocepção (consciência da posição corporal) e a interocepção (monitoramento de órgãos internos, como a expansão pulmonar). Ao demonstrar que variantes fisiológicas do Piezo 2 operam em diferentes faixas dinâmicas de sensibilidade, o estudo fornece uma base biofísica para entender a especialização dos neurônios sensoriais. A compreensão desses mecanismos estruturais amplia o conhecimento sobre a transdução de sinais mecânicos no sistema nervoso e pode direcionar futuras pesquisas sobre disfunções sensoriais e regulação da dor.

Referência: Sindoni, M., Sharp, W., & Grandl, J. Piezo2 tension sensitivity and its modulation by alternative splicing. Cell Reports. 2026;45:117521. DOI: https://doi.org/10.1016/j.celrep.2026.117521

Escrito por Paulo Gustavo Barboni Dantas Nascimento.

 

10. Sensibilização central na fibromialgia mostra associação limitada com genes candidatos

Um estudo prospectivo de caso-controle conduzido no Centro de Investigação Clínica do Hospital Universitário de Clermont-Ferrand, na França, investigou a relação entre a sensibilização central e a genética em mulheres com fibromialgia. A pesquisa avaliou 201 pacientes com a síndrome e 40 voluntárias saudáveis pareadas por idade, com o objetivo de entender se a amplificação da dor no sistema nervoso central — principal característica da doença — possui determinantes genéticos diretos. Os pesquisadores identificaram que o limiar do reflexo de flexão nociceptivo (NFR), uma medida objetiva da percepção da dor, foi significativamente menor nas pacientes com fibromialgia, confirmando a presença da sensibilização central. No entanto, a análise de 60 variações genéticas em 48 genes candidatos não demonstrou uma associação robusta com essa característica clínica.

Para avaliar a sensibilização central, a equipe utilizou o NFR, que consiste em um reflexo espinal induzido por estímulos elétricos repetidos para quantificar a excitabilidade da via de dor. Adicionalmente, amostras de sangue foram coletadas para extração de DNA e genotipagem de polimorfismos de nucleotídeo único (SNPs) previamente sugeridos na literatura como relevantes para a dor crônica. Na análise inicial, o estudo encontrou associações estatísticas entre a fibromialgia e variações em genes específicos, como o TACR1 (receptor envolvido na transmissão de sinais de dor), IL-10 (citocina anti-inflamatória) e FAAH (enzima do metabolismo de endocanabinoides). Contudo, quando os dados foram submetidos a testes estatísticos mais rigorosos para evitar resultados falso-positivos, nenhuma relação significativa entre a sensibilização central e os genótipos selecionados pôde ser confirmada. O polimorfismo do gene COMT, frequentemente citado na fisiopatologia da doença, também não apresentou associação com o limiar de dor medido pelo NFR.

Os resultados indicam que, embora a sensibilização central seja um mecanismo primário comprovado na fibromialgia, sua base genética pode ser mais complexa do que a explicada pelos genes candidatos tradicionalmente estudados. Os autores concluem que a falta de associações significativas neste grupo não descarta a influência genética, mas sugere que variações isoladas têm um impacto limitado na manifestação da síndrome. A principal limitação do estudo é o tamanho da amostra, que pode não ter sido suficiente para detectar efeitos genéticos sutis. Os pesquisadores recomendam que investigações futuras explorem essa via fisiopatológica utilizando coortes maiores e com fenótipos clínicos mais detalhados, o que poderá auxiliar na compreensão dos mecanismos biológicos subjacentes à dor crônica generalizada.

Referência: Macian N, Dualé C, Delay M, Leray V, Pereira B, Renaud Y, Gloor V, Desmeules J, Pickering G. Relationship Between Central Sensitization and Genetic Polymorphisms—A Case–Control Study in Fibromyalgia. European Journal of Pain. 2026. DOI: 10.1002/ejp.70308

Escrito por Paulo Gustavo Barboni Dantas Nascimento.