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Alerta da edição mensal

 

 

Efeitos do tabagismo em pacientes com dor crônica

Giovanna França Alves
 

O hábito de fumar é um problema recorrente na sociedade, mesmo com os crescentes apelos pela diminuição deste hábito na mídia e outros meios de comunicação. Quando se trata de dor atrelada ao uso do cigarro, o que se observa é uma via de mão dupla: o início do tabagismo é capaz de gerar um efeito analgésico pelo agonismo em receptores nicotínicos de Acetilcolina, entretanto, o uso crônico (por mais de um ano) causa um efeito contrário, ou seja, aumenta o risco de desenvolver dores.

 

Para entender melhor essa relação entre o uso do cigarro e a dor, foi feito um estudo retrospectivo com pacientes fumantes e não fumantes de uma instituição de saúde de Stanford. Esta análise consistiu no preenchimento de questionários e avaliações com escalas numéricas para saber a pior dor relatada pelo paciente e como está a dor atualmente vivida pelo mesmo. Posteriormente, os participantes receberam recomendações de tratamentos e métodos terapêuticos por profissionais da saúde, tendo sido avaliado novamente.

 

Observou-se que os pacientes fumantes detinham maior intensidade da dor atual e da pior dor já sentida, além de possuírem pior qualidade de sono e maior nível de fadiga. Não para por aí: os fumantes relataram menor qualidade emocional, evidenciada por raiva, depressão e ansiedade.

 

Vale ressaltar que os pacientes fumantes detiveram maior incapacidade funcional, consequentemente levando ao maior uso de opioides. Este comportamento ajuda a entender a procura pelo cigarro, já que essas pessoas fumam em busca do auxílio inicial proporcionado pelo tabagismo, tendo em vista que a nicotina aumenta a tolerância e o limiar da dor. Entretanto isto gera um ciclo vicioso, e embora não seja bem explicado, é sabido que em determinado momento os receptores de acetilcolina sofrem dessensibilização e tolerância, findando assim, o efeito analgésico provocado pelo ato de fumar.

 

O outro lado desta moeda também é problemático, pois, embora o cigarro cause estresse oxidativo, inflamação e prejuízo na oxigenação, a abstinência não demonstrou melhora no quadro, pelo contrário, a parada do tabagismo tornou os pacientes quase 3,5 vezes mais propensos em desenvolver a dor.

 

Assim, conclui-se que fumar causa maiores níveis de dor nas pessoas e diversos outros prejuízos, entretanto a retirada do cigarro em pacientes com dor crônica gera sintomas afetivos negativos diante do enfrentamento da situação dolorosa. Para tanto, faz-se necessária a gestão e desenvolvimento de métodos específicos para tratar esses pacientes, já que os tratamentos convencionais de dor são inoperantes diante do tabagismo, validando assim, novas intervenções para além dos cuidados já utilizados.

 

Referências: Khan JS, Hah JM, Mackey SC.Effects of smoking on patients with chronic pain: a propensity-weighted analysis on the Collaborative Health Outcomes Information Registry. Pain. 2019; 160(10):2374-2379.

 

Alerta submetido em 03/12/2019 e aceito em 03/12/2019.