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Alerta da edição mensal

 

 

Antidepressivos e dor neuropática

Larissa Fernanda Matias Werworn

 

A dor neuropática, segundo a Associação Internacional para o Estudo da Dor (International Association for the Study of Pain) é a dor que surge como uma consequência direta de uma lesão ou doença que afeta o sistema somatossensorial. Esta condição é difícil de ser tratada e pode levar a sérias consequências físicas e psicossociais. Ainda, estima-se que possui uma prevalência de 7 a 10% na população.

 

A dor severa é uma das principais causas de depressão, ansiedade e baixa qualidade de vida em pacientes com doenças e condições crônicas como diabetes, lesões na medula espinal e câncer. A depressão e a dor crônica são condições multifatoriais que possuem fatores de risco biológicos e psicossociais em comum. Estudos sugerem que o estresse crônico e transtornos psiquiátricos relacionados ao estresse podem exacerbar a dor neuropática. Ao mesmo tempo, pessoas com dor neuropática possuem uma maior chance de ter episódios depressivos.

 

Como a dor neuropática e a depressão compartilham alguns princípios relevantes de tratamento, evidências atuais sugerem o uso de antidepressivos para ambas as condições. Os antidepressivos tricíclicos (em particular a amitriptilina e a imipramina) têm se mostrado efetivos para diversos tipos de dor neuropática, sendo recomendada como primeira linha de escolha a sua associação com inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (ex. duloxetina e venlafaxina). No entanto, a literatura atual enfatiza fortemente o controle da dor como alvo principal do tratamento, dando menos atenção para episódios ansiosos e depressivos e a qualidade de vida dos pacientes.

 

Caruso e colaboradores (2019) realizaram uma meta-análise de ensaios controlados e aleatorizados com o objetivo de avaliar a eficácia de antidepressivos sobre sintomas depressivos, ansiedade e qualidade de vida em pacientes com dor neuropática causada por diferentes doenças e condições. Esta foi a primeira meta-análise que focou especificamente no efeito dos antidepressivos sobre sintomas psiquiátricos e qualidade de vida em pacientes com dor neuropática.

 

Observou-se que antidepressivos, de um modo geral, foram mais efetivos que placebo na melhora de sintomas depressivos destes pacientes, apesar da magnitude do efeito ter sido pequena. No entanto, estes sintomas depressivos não foram reduzidos em pacientes com dor neuropática relacionada à diabetes, secundária a lesões, pós-cirúrgica ou pós-amputação.

 

A análise também mostrou que os pacientes que utilizaram antidepressivos tiveram uma melhora na qualidade de vida, redução na dor e menor taxa de abandono do tratamento por ineficácia do que os pacientes que receberam placebo. Considerando o resultado sobre os sintomas depressivos, a melhora na qualidade de vida provavelmente pode ser atribuída à ação analgésica dos antidepressivos. Os antidepressivos, entretanto, não foram melhores que placebo em reduzir a ansiedade.

 

A tolerabilidade, medida através da taxa de abandono devido a efeitos adversos, e aceitabilidade, medida através das taxas de abandono total do tratamento, foram maiores para o placebo, em taxas que não condizem com o perfil da maioria dos antidepressivos na população em geral. Estes resultados podem indicar que os antidepressivos, usualmente considerados seguros e bem tolerados, poderiam apresentar um perfil menos gerenciável quando usados em populações com dor neuropática e condições sérias como diabetes ou câncer.

 

Por fim, enquanto a eficácia analgésica dos antidepressivos tricíclicos e os inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina continuam sendo o pilar do tratamento de pacientes com dor neuropática, o uso deles tendo como foco os sintomas psiquiátricos comórbidos ainda é incerto devido ao pequeno efeito benéfico observado e possível problemas na tolerabilidade. Além disso, apesar de os antidepressivos melhorarem a depressão e ansiedade na população em geral, a adequação do uso destes em pacientes com dor neuropática deve ser avaliada individualmente, caso a caso, levando em consideração fatores individuais biológicos e psicossociais envolvidos, e considerando que antidepressivos tricíclicos e inibidores da recaptação da serotonina e noradrenalina podem ser menos tolerados por estes pacientes.

 

Referência: Caruso R et al. Beyond pain: can antidepressants improve depressive symptoms and quality of life in patients with neuropathic pain? A systematic review and meta-analysis. Pain. 2019; 160(10); 2186-2198.

 

Alerta submetido em 09/10/2019 e aceito em 09/10/2019.

 


Leitura original e/ou complementar