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Alerta da edição mensal

 

 

Analgesia social induzida pelo toque em mulheres

Giovanna França Alves

 

O toque é um ato de comunicação que gera bem-estar, além de proporcionar melhor desenvolvimento físico e psicológico e redução de reatividade ao estresse e às respostas relacionadas à dor. Estudos anteriores já demonstram isso e revelam o papel de regiões somatossensoriais no afeto e prazer provocado pelo toque. Entretanto não se sabe ao certo quais regiões são responsáveis e quais são afetadas por esse efeito.

 

O presente estudo testou se o ato de dar as mãos evoca analgesia, se esse efeito modula regiões relacionadas ao estresse e ao comportamento defensivo e se a modulação das regiões somatosensoriais pode interferir nos processos nociceptivos centrais.

 

A amostra consistiu de trinta mulheres voluntárias com idade entre 24 e 65 anos, sem histórico de distúrbios neurológicos e dolorosos e que mantiveram um relacionamento comprometido e monogâmico por pelo menos três meses. O experimento consistiu em oito ensaios de ressonância magnética onde as participantes seguravam um dispositivo de borracha que gerava um estímulo doloroso em dois momentos, sendo eles com e sem o apoio das mãos dos parceiros, com análise da dor por meio de Escala Analógica Visual. Vale lembrar que as voluntárias não conseguiam ver o parceiro devido a posição no aparelho de ressonância, entretanto para atestar a presença do devido companheiro, estes foram aconselhados a dar palavras de apoio a parceira.

 

Os resultados encontrados demonstraram que o apoio das mãos levou à redução da intensidade da dor e aumento do conforto emocional. Tal achado corrobora com uma melhor qualidade do relacionamento e maior proximidade com o parceiro romântico. Dar as mãos reduziu a ativação de regiões tradicionalmente associadas ao processamento e regulação da dor, tais como substância cinzenta periaquedutal, amígdala e cerebelo, e reduziu a resposta provocada pela dor em regiões relacionadas ao afeto e recompensa, ou seja, reduziu a nocicepção central e as respostas cerebrais relacionadas ao estresse. Estudos anteriores demonstram a eficácia na redução da dor por meio de intervenção farmacológica. Os autores sugerem que o mecanismo de ação dos fármacos e da intervenção deste estudo provavelmente diferem entre si.

 

É sabido que o toque é um comportamento comum em expressar apoio diante de momentos de luta e sofrimento. Isso leva a crer que dar as mãos ao parceiro gera a sensação de compartilhar o peso daquele momento com outra pessoa, neutraliza o efeito negativo da dor e ainda leva a uma mudança de atenção, levando a distração do estímulo doloroso, por meio da ação do Córtex Somatossensorial Primário na inibição nociceptiva central.

 

Estudos anteriores relataram que segurar a mão de um estranho não gerou analgesia, corroborando assim na ideia de que a proximidade com o parceiro é fator crítico para modulação da dor pelo toque. É importante considerar que as mulheres são mais susceptíveis a desenvolver distúrbios crônicos da dor e que seus mecanismos de resposta não são necessariamente os mesmos no sexo masculino, ou seja, os achados do presente artigo podem não ser generalizados para os homens.

 

Assim, o ato de dar as mãos gera respostas em circuitos relacionados ao estresse, emoção e atenção, não se limitando apenas a modulação do sinal, mas alterando a conectividade do cérebro e sendo afetada por aspectos sociais e afetivos para com o parceiro romântico.

 

Referência: López-Solà M, Geuter S, Koban L, Coan JA, Wager TD. Brain mechanisms of social touch-induced analgesia in females. Pain. 2019; 160(9):2072-2085.

 

Alerta submetido em 20/09/2019 e aceito em 20/09/2019.

 


Leitura original e/ou complementar