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Alerta da edição mensal

 

 

O papel da ocitocina e do diálogo positivo entre casais na percepção da dor

Laura Borges Lopes Garcia Leal

 

As interações sociais apresentam impacto relevante em aspectos emocionais, como o suporte em situações de angústia. Além disso, interações afetivas com o parceiro, por exemplo, podem reduzir respostas à dor aguda. Um mecanismo relacionado à redução de estresse e melhora na resposta ao estímulo doloroso é descrito pelo papel da ocitocina, um neuropeptídeo envolvido no processamento do medo, comportamento de apego e resposta à dor, atuando em regiões cerebrais chamadas Amígdala e Ínsula.

 

Para compreender a relação entre a ocitocina e o diálogo positivo entre casais na percepção da dor, um estudo foi realizado pela Universidade de Zurich, na Suíça. Participaram do estudo 80 casais heterossexuais, entre 21 e 45 anos, que moravam juntos há, pelo menos, 12 meses no momento do estudo. No grupo experimental, foi realizada indução de quatro bolhas por meio de calor e sucção na face interna do braço e foram orientados para administração de ocitocina intranasal por cinco dias, além de uma instrução para um diálogo que deveria contemplar 23 tópicos relacionados ao casal (confiança, planos, suporte emocional, entre outros). Os participantes deveriam, nos cinco dias seguintes, relatar sua dor e outros aspectos pessoais como humor, estresse e variáveis de controle, num dispositivo fornecido pelos pesquisadores.

 

A partir de modelos de análise multinível, os resultados revelaram que quanto maior a dor vivenciada por um parceiro, maior a dor sentida pelo outro. Além disso, a interação positiva entre casais reduziu a dor de forma significativa em mulheres. No entanto, esse efeito não foi visto nos homens. Em relação ao efeito da ocitocina intranasal, homens apresentaram menores níveis de dor, ao contrário das mulheres, as quais relataram maiores níveis. É importante constatar que apenas 86 dos 160 participantes relataram dor maior que 0 no primeiro momento de medida, logo após a aplicação das bolhas.

 

Os resultados vão de acordo com estudos prévios que sugerem que casais tendem a apresentar uma similaridade na dor percebida, evidenciando uma tendência ao equilíbrio psicobiológico e um comportamento empático entre os parceiros. Uma alternativa para explicar o aumento nos níveis de dor em mulheres que utilizaram a ocitocina se dá pela possível influência do ciclo menstrual, alterando as concentrações endógenas do hormônio. Contudo, as mulheres foram beneficiadas pelo diálogo positivo, mostrando que são capazes de responder de forma mais sensível aos moduladores sociais de estresse e dor comparado aos homens.

 

O estudo abordou a significativa influência do relacionamento amoroso entre parceiros na percepção dolorosa, com caráter positivo para as mulheres, diferente do papel da ocitocina, que apresentou benefícios apenas para os homens. Contudo, os autores relatam que os resultados não podem ser estendidos para casais com dores severas ou crônicas e novos estudos precisam ser conduzidos.

 

Referência: Pfeifer AC, Schroeder-Pfeifer P, Schneider E, et al. Oxytocin and positive couple interaction affect the perception of wound pain in everyday life. Mol Pain. 2020;16:1744806920918692. doi:10.1177/1744806920918692

 

Alerta submetido em 14/08/2020 e aceito em 14/08/2020.