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Alerta da edição mensal

 

 

Relação entre dor e a síndrome de Parkinson

Camilla Rizzo Nappi

 

A dor é um componente importante e frequente em muitos distúrbios neurológicos, dentre eles a doença de Parkinson, uma doença neurodegenerativa, crônica e progressiva, na qual há comprometimento da produção do neurotransmissor dopamina, em especial na via nigroestriatal. Embora esta doença apresente sintomas motores classicamente conhecidos (bradicinesia, tremor em repouso, rigidez e instabilidade postural), ela também possui sintomas não motores importantes, como demência, depressão, distúrbios do sono, disfunção autonômica e sintomas sensoriais. Entretanto, a fisiopatologia da dor nesses pacientes permanece indefinida.

 

A dor parkinsoniana central é um dos cinco subtipos de dor na doença de Parkinson identificados por Ford, 2010 e supõe-se que seja o único subtipo de dor que é uma consequência direta da própria doença, resultante de processamento de informações dolorosas anormais, e não o resultado de distonia e rigidez (distúrbios na função motora). Sendo assim, essa dor parkinsoniana central não está relacionada a uma lesão no sistema nervoso periférico e não atende aos critérios atuais para dor neuropática central. Contudo, a associação entre dor parkinsoniana central e sintomas motores ainda é amplamente desconhecida e a relação entre percepção da dor parkinsoniana central e tratamento para doença de Parkinson ainda é motivo de discussão.

 

Um estudo transversal com pacientes da Movement Disorders Clinic do Centro Hospitalar do Porto (em Portugal) diagnosticados com doença de Parkinson demonstrou que dos 292 pacientes com essa doença, 73% apresentavam dor. Além disso, 63% dos pacientes relataram dor diária e a maioria (83%) a classificou como moderada ou intensa. Estes dados confirmam que a dor é um sintoma perturbador em pacientes com doença de Parkinson. Ademais, a presença de dor foi relacionada a sintomas motores mais graves, presença de flutuações motoras e maior duração do estado off (período em que o paciente não está sob o efeito dos medicamentos). Esses achados confirmam relatos anteriores de associações significativas entre dor e manifestações motoras mais graves da doença de Parkinson.

 

Esse mesmo estudo revelou que os pacientes com dor parkinsoniana central são mais jovens e apresentam um início precoce da mesma, mas apresentavam sintomas não motores mais graves do que os pacientes com dor parkinsoniana não central. Além disso, pacientes com dor parkinsoniana central apresentaram mais sintomas não motores resistentes à levodopa (medicamento considerado o padrão-ouro no tratamento da doença de Parkinson) do que pacientes com dor parkinsoniana não central, apesar de apresentarem sintomas motores semelhantes ou até menos graves.

 

Todavia quase todos os pacientes com dor parkinsoniana central (97%) relataram alívio da dor com terapia dopaminérgica, enquanto apenas 37% dos pacientes com dor parkinsoniana não central experimentaram melhora com a medicação antiparkinsoniana. Esses resultados corroboram com a noção de que a detecção sensorial anormal em pacientes com doença de Parkinson também pode ser melhorada com terapia dopaminérgica, especialmente em pacientes com dor parkinsoniana central, sugerindo o envolvimento do sistema dopaminérgico na nocicepção central nestes pacientes. Estes dados apontam para a possibilidade de uma redução da inibição da dor descendente na doença de Parkinson. Esse conjunto de associações sugere a necessidade de uma abordagem integrada dos sintomas motores e não motores no atendimento clínico de pacientes com doença de Parkinson com dor parkinsoniana central.

 

Referência: Vila-Chã N, Cavaco S, Mendes A, Gonçalves A, Moreira I, Fernandes J, Damásio J, Azevedo LF, Castro-Lopes J. Unveiling the relationship between central parkinsonian pain and motor symptoms in Parkinson's disease. Eur J Pain. 2019; 23(8):1475-1485.

 

Alerta submetido em 04/11/2019 e aceito em 04/11/2019.