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Alerta da edição mensal

 

 

Liberação da interleucina-1 depende da ativação do receptor Toll-like 4

Cássia Regina da Silva
 

A artrite gotosa ou gota, é uma doença metabólica caracterizada pelo acúmulo e cristalização de ácido úrico (MSU) nas articulações. Ela pode ser dividida em 4 fases, a hiperuricemia assintomática, os ataques agudos, períodos intercríticos que ocorrem entre os ataques agudos e também são assintomáticos, e os tofos, que são a cronificação da doença e envolvem o comprometimento das articulações. É a artrite inflamatória que mais atinge homens acima de 40 anos de idade e mulheres na menopausa.

 

O ataque agudo tem duração média de 6 dias, contudo, se não tratado, ocorre cada vez mais com maior frequência e tem aumento no tempo de sua duração, facilitando ainda o surgimento de tofos. A dor decorrente do ataque agudo é descrita como uma das piores dores que o humano pode experimentar. Dentre as terapias disponíveis, os anti-inflamatórios não esteroidais, alopurinol, colchicina e corticosteroides são as medicações de primeira escolha. Apesar disso, a gota é uma doença difícil de tratar devido aos efeitos adversos das terapias existentes, bem como contraindicações associadas a comorbidades como hipertensão e insuficiência renal. É valido mencionar que cerca de 74% dos indivíduos com gota tem ainda hipertensão e portanto são refratários a algumas medicações que poderiam ser utilizadas em indivíduos apenas com gota.

 

Recentemente, a capacidade dos cristais de MSU de ativar células fagocíticas residentes da articulação para liberar interleucina 1 beta (IL-1β) foram demonstradas, o que motivou o uso de terapias direcionadas ao controle desta citocina. A IL-1β é crucial para o recrutamento de neutrófilos, que é a principal característica da inflamação na gota, e age ligando-se ao receptor IL-1 do tipo 1 (IL-1R1). Assim, atualmente estão disponíveis na clinica o canakinumab e a anakinra, bloqueador da IL-1β e o antagonista sintético do receptor IL-1R. No entanto, os pacientes precisam ser monitorados de perto quanto a possíveis efeitos colaterais e tolerância ao tratamento. Assim, o entendimento do exato mecanismo envolvido na liberação de IL-1β induzida por MSU ainda precisa de avanços.

 

Neste sentido, um estudo de um grupo de pesquisadores brasileiros, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e da Universidade de São Paulo (USP), demonstraram que a liberação de IL-1β é mediada pelos recepores Toll-like 4 (TLR4) e o receptor de potencial transitório vanilóide, o mesmo ativado por pimenta vermelha (TRPV1). Eles demonstraram ainda que a liberação de oxido nítrico medeia estas respostas em macrófagos, células do sistema imune que estão envolvidas na liberação de IL-1β nas articulações. Ainda, o estudo conseguiu levantar algumas hipóteses que indicam o possível envolvimento dos receptores TLR4 com a pré-disposição a gota causada pela hiperuricemia.

 

O estudo também reforça o uso clínico de terapias que tenham como alvo o controle da IL-1β, seja por ligação a citocina ou ao seu receptor, como canakinumab e anakinra, medicações muito uteis naqueles que têm contraindicações ou são refratários a outros tratamentos. Assim, este estudo importante, de um grupo de pesquisadores brasileiros, trouxe avanços no entendimento dos mecanismos envolvidos na indução da artrite gotosa que podem resultar na melhoria do tratamento destes indivíduos.

 

Referência: Monosodium urate crystal interleukin-1β release is dependent on Toll-like receptor 4 and transient receptor potential V1 activation. Rossato MF, Hoffmeister C, Trevisan G, Bezerra F, Cunha TM, Ferreira J, Silva CR. Rheumatology (Oxford). 2019 . pii: kez259. doi: 10.1093/rheumatology/kez259

 

Alerta submetido em 02/09/2019 e aceito em: 02/09/2019.

 


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