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Alerta da edição mensal

 

 

A resposta imune do macrófago frente ao Glicolipídeo Fenólico 1 da Mycobacterium leprae e a neuropatia periférica na doença de Hansen

Cássia Regina da Silva

 

A Hanseníase é uma doença crônica, transmissível, capaz de infectar grande número de pessoas, de notificação e investigação compulsória, causada pela bactéria Mycobacterium leprae. A transmissão se dá de uma pessoa doente sem tratamento para outra, após um contato próximo e prolongado, especialmente os de convivência domiciliar. Apesar de erradicada na maioria dos países europeus, a hanseníase é frequente em países de clima tropical e afeta 14/100 mil habitantes no Brasil (dados do Ministério da Saúde referentes a 2015).

 

A hanseníase é uma das causas de neuropatia periférica. É muito comum, mas pouco diagnosticada. A mononeurite é a forma mais comum de apresentação da hanseníase, sendo os nervos dos membros superiores mais frequentemente atingidos. O envolvimento cutâneo cursa com lesões desfigurantes, sendo estas responsáveis pelo estigma que a doença ainda acarreta. Até o momento, estudos mostravam que o M. leprae afetava o processo de mielinização por infectar e diferenciar células de Schwann, responsáveis pela mielinização dos nervos periféricos. Estes estudos apontaram o Glicolipídeo Fenólico 1 (GF1) presente na membrana externa do M. leprae como crítico para esta infecção. A principal limitação na investigação nesta área surge da incapacidade de cultivar o M. leprae, um patógeno intracelular obrigatório.

 

Neste estudo desenvolvido por pesquisadores das Universidades de Washington, Stanford e Califórnia, foi utilizado um modelo animal para o estudo de micobactérias em zebrafish, primeiramente padronizado para a Mycobacterium marinum que, de forma similar ao M. leprae, cresce em temperaturas próximas a 30°C e induz infecções granulomatosas em humanos. Contudo, o M. marinum não é capaz de causar neuropatia. Em um estudo prévio o grupo já havia observado que similar a M. marinun, a M. leprae foi eficaz em causar a infecção de larvas de zebrafish, interagindo com macrófagos e levando ao desenvolvimento de granulomas, semelhante ao M. marinum. Diferente do M. marinun, a M. leprae foi capaz de causar dano axonal. Contudo, neste estudo foi observado que, quando foi feita a expressão do GF1 na M. marinun, a infecção por esta bactéria também levou a danos nos nervos periféricos de maneira similar a infecção por M. leprae causando, inclusive, as “protuberâncias de mielina”, confirmando a importância do GF1 para o processo de lesão dos nervos periféricos que pode resultar no desenvolvimento de neuropatia. Este achado foi ainda confirmado em experimentos in vivo. É importante observar que macrófagos responderam de maneira similar à infecção por M. leprae, M. marinun e M. marinun-GF1 em relação à capacidade de afetar o processo de mielinização. Contudo, apenas M. leprae e M. marinun-GF1 foram capazes de levar aos danos axonais, antes mesmo de afetar o processo de mielinização, e de causar as modificações na mielina, como o desenvolvimento de protuberâncias. Além disso, os pesquisadores demonstraram que macrófagos infectados pelo M. leprae, ao invés da micobactéria em si, é que iniciam os danos e desmielinização aos nervos periféricos, similar ao papel de macrófagos descrito na esclerose múltipla e síndrome de Guillain-Barré.

 

Assim, o estudo lança um novo olhar sobre essas e outras doenças neurodegenerativas em que células mieloides são cada vez mais reconhecidas como contribuindo para a neuropatologia da doença, bem como fornece um sistema experimental no qual elas podem ser exploradas.

 

Referência: Madigan CA, Cambier CJ, Kelly-Scumpia KM, Scumpia PO, Cheng TY, Zailaa J, Bloom BR, Moody DB, Smale ST, Sagasti A, Modlin RL, Ramakrishnan L. A Macrophage Response to Mycobacterium leprae Phenolic Glycolipid Initiates Nerve Damage in Leprosy. Cell. 2017, 170(5):973-985.e10.

 

Alerta submetido em 27/09/2017 e aceito em 03/10/2017.


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