Um estudo
recente publicado na revista Science
Advances identificou o mecanismo celular que
diferencia o processamento da dor aguda e da
dor crônica no sistema nervoso central.
Investigando neurônios de projeção
localizados no corno dorsal da medula —
células responsáveis por transmitir sinais
de dor ao cérebro —, os pesquisadores
observaram que, durante o pico da dor aguda,
essas células reduzem sua excitabilidade
intrínseca. Em contraste, em modelos de dor
crônica, esse mecanismo regulatório não é
ativado, resultando em um aumento
substancial e descontrolado na transmissão
de sinais dolorosos.
A pesquisa
utilizou técnicas eletrofisiológicas de
patch clamp para medir a atividade elétrica
de neurônios específicos em modelos animais
de inflamação aguda e lesão nervosa crônica.
Os resultados mostraram que a diminuição da
excitabilidade durante a dor aguda é mediada
por um aumento na "corrente de potássio A",
que atua como um freio elétrico nas células.
Quando a inflamação aguda se resolveu, a
atividade neuronal retornou aos níveis
normais. No entanto, nos modelos de dor
crônica, a modulação dessa corrente de
potássio falhou, mantendo os neurônios em um
estado de hiperexcitabilidade persistente.
A descoberta
fornece uma explicação biológica para o
processo de cronificação da dor. A redução
temporária da excitabilidade na fase aguda
atua como um sistema de proteção, refinando
os sinais enviados ao cérebro e permitindo
um estado de hipersensibilidade controlada e
reversível. A identificação dessa via
inibitória dependente de potássio sugere
novos alvos terapêuticos; o desenvolvimento
de fármacos capazes de restaurar esse
"freio" neural específico pode oferecer
estratégias para prevenir ou tratar a
transição de condições dolorosas agudas para
síndromes de dor crônica debilitante.
Referência:
Title P, et al. Opposite regulation of
medullary pain-related projection neuron
excitability in acute and chronic pain. Sci
Adv. 2025;11:eadr3467. doi: 10.1126/sciadv.adr3467.