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Editorial do mês

 

 

Qual o mecanismo de ação da dipirona?
Alexandre Gomes de Macedo Maganin (1)

  

A dor é uma resposta fisiológica a estímulos nocivos, que tem como função a preservação do indivíduo, alertando sobre um dano real ou sobre o perigo de um possível dano mais grave, sendo descrita como uma experiência emocional e sensorial desagradável. Entretanto, quando perde sua função fisiológica e passa a ser de caráter patológico, a dor se torna um grande problema socioeconômico. Atualmente é uma das adversidades que mais afeta a sociedade, levando a incapacitação dos indivíduos, o que consequentemente leva a um alto prejuízo econômico.

 

Os tratamentos para dor se baseiam no uso de anti-inflamatórios não esteroidais, analgésicos-antipiréticos não-opioides, chegando, em casos mais graves como na dor neuropática, até uso de antidepressivos tricíclicos. Dentre os analgésicos-antipiréticos não-opioides, o metamizol, comercialmente conhecido como dipirona, é utilizado como primeira escolha para alivio da dor. Esse fato se dá pela sua rápida hidrólise nós pró-fármacos, 4-N-metilaminoantipirina (MAA) e 5-aminotipirina (AA) no organismo, que possuem papel inibitório da ciclooxigenase (COX), ou seja, inibindo a formação de mediadores pró-inflamatórios, como a prostaglandina E2, que possuem relação direta com a sensibilização neuronal, levando à dor.

 

O mecanismo de ação da dipirona ainda é questionável e pouco descrito. Estudos vêm sugerindo que o efeito da dipirona, como analgésico, é devido a sua ação em canais de cátion em potencial do receptor transitório, subfamília A e V (TRPA1 e TRPV1, respectivamente). Trabalhos descrevem a dipirona exercendo papel agonista desses canais, devido ao fato deles terem papel fundamental na analgesia, e que a dipirona podem ser capazes de modificar esses canais por meio de liberação de espécies reativas, levando a um antagonismo dos canais.

 

Contudo, nos últimos anos, uma nova abordagem sobre a ação da dipirona vem sendo discutida, acredita-se que seu efeito não é por antagonizar os canais TRPA1 e TRPV1, mas sim por ter efeito agonista nesses canais isso é, ativando-os. Possivelmente pelo fato de que a dipirona é rapidamente metabolizada em MMA e AA e que esses pró-fármacos tem capacidade de modular esses canais via ação redox dependente nos terminais-N cisteina, levando ao efeito analgésico.

 

Outros estudo sugerem que o mecanismo de ação analgésico da dipirona ocorre através da via óxido-nítrico (NOS) e cGMP, devido a resultados indicarem que na presença de inibidores de NOS e sGC inibiam a ação analgésica da dipirona, além disso os não se observavam efeitos antinociceptivos da dipirona após o pré-tratamento com inibidores da NOS.

 

Corroborando esses dados, outros trabalhos demonstram que a dipirona e seu metabólitos ativam cGMP e levam a abertura de canais de potássio dependentes de ATP, levando a uma ativação da cascata L-arginina/NO/cGMP/K ATP. Entretanto o AA, metabólito ativo da dipirona também pode agir via receptor de canabinóide do tipo 1 (CB1) , modulando de forma negativa os receptores do tipo TRP. Através da modulação da proteína quinase dependente de AMP cíclico (PKA), reduzindo assim a fosforilação dos TRP, e assim a ação desses receptores na modulação neuronal, levando ao efeito de analgesia do metabólito ativo da dipirona.

 

Mesmo ainda não havendo consenso sobre a via de ação da dipirona, ela continua sendo o analgésicos-antipiréticos não-opioide de primeira escolha para o tratamento da dor no Brasil e outros países.

 

Referências:

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(1) Biólogo, doutorando do Departamento de Farmacologia da FMRP-USP.