A enxaqueca é
definida pela Sociedade Internacional de
Enxaqueca (International Headache Society)
como um distúrbio primário e incapacitante
da dor de cabeça. Caracteriza-se por
episódios de cefaleia de intensidade
moderada a grave, geralmente unilateral, e
pode estar acompanhada de náuseas, fotofobia
e hiperacusia. Quando os sintomas persistem
por 15 dias ou mais por mês, por tempo
superior a três meses, caracteriza-se um
quadro de enxaqueca crônica1,2.
Pode-se
classificar a enxaqueca em dois tipos
principais: a enxaqueca sem aura e com aura.
A enxaqueca sem aura é uma síndrome clínica
caracterizada por cefaleia unilateral, de
qualidade pulsátil, intensidade moderada ou
grave e associada a outros sintomas. A
enxaqueca com aura é identificada pela
presença de distúrbios focais e/ou motores
transitórios no Sistema Nervoso Central (SNC),
como alterações visuais, sensoriais e
tremores que normalmente precedem e/ou
acompanham a dor de cabeça. Quando os
sintomas precedem a dor de cabeça,
entende-se por fase prodrômica ou pródromo,
ocorrendo horas ou dias antes da cefaleia,
seguindo a fase da aura, se houver, e da
crise de cefaleia. Já a fase pós-drômica ou
pósdromo acontece após a resolução da dor1,3.
A doença, uma
condição neurológica de alta incidência, é
considerada incapacitante por causar
prejuízos no trabalho, estudo e na
produtividade, além do impacto na qualidade
de vida dos indivíduos, afetando uma parcela
considerável da população mundial4,5.
Os mecanismos envolvidos no processo são
complexos, envolvendo alterações na
excitabilidade cortical e liberação de
neuropeptídeos inflamatórios, em especial o
Peptídeo Relacionado ao Gene da Calcitonina
(PRGC)5,9. Como forma de prevenir
as consequências da enxaqueca, pacientes que
se automedicam criam um ciclo vicioso de uso
de analgésicos, medicamentos derivados da
ergotamina (ergóticos) e outras combinações
que, contraditoriamente, criam um feedback
que aumenta a frequência e intensidade das
crises, condição secundária que piora o
quadro clínico, conhecida como “cefaleia de
uso excessivo”6.
Para evitar
esse quadro, é essencial, antes de tudo, o
diagnóstico correto da enxaqueca para o
tratamento adequado, uma vez que a doença
possui sinais e sintomas muito semelhantes a
outros tipos de cefaleias. Como os critérios
para distinção estão os estabelecidos pela
Classificação Internacional de Cefaleias (ICHD-3),
o MIDAS (Migraine Disability Assessment), e
o uso de exames de imagem como Ressonância
Magnética e Tomografia Computadorizada4.
O manejo
terapêutico da enxaqueca possui duas formas
de intervenção: aguda e profilática. Na
forma aguda, o tratamento tem como foco os
sinais e sintomas da dor. Na forma
profilática, o objetivo é que haja o manejo
para que as crises seguintes sejam menos
duradouras e de menor intensidade. Além
disso, o uso de terapias complementares não
farmacológicas também é indicado: técnicas
de relaxamento, psicoterapia, fisioterapia,
acupuntura e mudança no estilo de vida4.
Essas terapias têm a finalidade de melhorar
a qualidade de vida dos pacientes, diminuir
o consumo de analgésicos e retardar a
progressão da doença. Em relação às terapias
farmacológicas, utiliza-se comumente os
medicamentos antidepressivos tricíclicos,
anti-inflamatórios, betabloqueadores e
anticonvulsivantes4,5.
Nesse
contexto, a introdução de anticorpos
monoclonais como coadjuvantes no tratamento
profilático tem recebido notável atenção na
prática clínica. A terapia, que é recente no
mercado, possui clones de linfócitos B
parental, sendo específicos para cada
patógeno. No caso da enxaqueca, os
anticorpos que possuem como alvo a via do
PRGC têm grande visibilidade na literatura,
sendo descritos como uma opção segura e
tolerada para a profilaxia7.
O PRGC é um
peptídeo com 2 isoformas, ambas agonistas do
receptor de PRGC. O peptídeo está envolvido
em diferentes processos fisiológicos e em
respostas homeostáticas durante condições
fisiopatológicas. No SNC, está envolvido na
modulação da dor, na percepção e na
sensibilização central. Há evidências do
envolvimento do PRGC na fisiopatologia da
enxaqueca, por exemplo, em estudos que
mostram o aumento sérico do peptídeo durante
a crise8,9.
Os anticorpos
monoclonais são administrados pelas vias
endovenosa e subcutânea. Nas injeções
subcutâneas, pode-se levar de 2 a 8 dias
para atingir o pico das concentrações
plasmáticas. Os fatores que afetam a
farmacocinética do anticorpo incluem as suas
propriedades, sua distribuição,
concentração, e as características do
paciente, como o índice de massa corporal,
sexo, idade e nível de atividade. Por ser um
medicamento termolábil, necessita de
refrigeração constante (entre 2 e 8º), e
mudanças bruscas de temperatura no
armazenamento também podem ocasionar em
diminuição da efetividade do tratamento8.
Os anticorpos
monoclonais possuem alta especificidade, por
isso, há baixo risco de ação em células e
tecidos não desejados. Os efeitos adversos
relacionados ao uso do anticorpo podem estar
associados à administração do medicamento,
causando sinais e sintomas como vermelhidão,
dor local e edema10. Embora tenha
sido demonstrado que os anticorpos que têm
como alvo o sistema PRGC são seguros e bem
tolerados, De Boer e colaboradores12
alertam sobre o risco de um evento isquêmico
cerebral em pacientes com doença de pequenos
vasos, uma vez que o peptídeo é um potente
vasodilatador.
Em relação à
imunogenicidade, as terapias com anticorpos
monoclonais podem induzir a biossíntese de
autoanticorpos. Essa produção pode, por sua
vez, bloquear a atividade dos anticorpos
monoclonais ou não produzir efeito sobre sua
atividade. Estudos clínicos em pessoas com
enxaqueca indicam que a produção de
anticorpos contra os anticorpos monoclonais
é variável e tem sido estudada para
compreender a sua segurança10.
Até o momento,
quatro anticorpos monoclonais são indicados
para o tratamento da enxaqueca (eptinezumabe,
erenumabe, fremanezumabe e galcanezumabe). O
erenumabe bloqueia especificamente o
receptor de PRGC, enquanto os outros se
ligam à molécula PRGC. Ensaios clínicos
aleatorizados de fase 3 mostraram a eficácia
do uso de anticorpos tanto para manejo de
enxaqueca episódica como para o tratamento
de enxaqueca crônica. Os desfechos positivos
incluem redução na frequência da enxaqueca,
redução no uso de medicamentos específicos
para enxaqueca aguda, diminuição no número
de dias mensais de enxaqueca e o seu
impacto, e melhores taxas de resposta
comparada ao placebo13-16.
Uma
meta-análise foi realizada com estudos
controlados e aleatorizados de fase 3 que
avaliaram a segurança e a tolerabilidade dos
anticorpos para tratamento da enxaqueca e,
dentre eles, os anticorpos monoclonais. Nos
estudos avaliados, o fremanezumabe e o
galcanezumabe apresentaram maior
probabilidade de ocorrência de Eventos
Adversos Emergentes do Tratamento (TEAEs) em
comparação com o placebo, incluindo eritema,
endurecimento e prurido. Em relação a
eventos adversos graves, não foram
encontradas diferenças significativas entre
os tratamentos ativos e o placebo7.
Todos os
quatro tipos são aprovados pela Agência
Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA)
para o tratamento de crises de enxaqueca. No
entanto, no Brasil, os anticorpos
monoclonais não pertencem ao elenco da
Relação Nacional de Medicamentos Essenciais
- RENAME publicada em 2024, que contempla os
medicamentos e insumos disponíveis no SUS17.
No cenário mundial, as terapias com
anticorpos monoclonais ainda apresentam
obstáculos relacionados à acessibilidade,
preço e distribuição10. Apesar de
os anticorpos monoclonais apresentarem boa
tolerabilidade e resultados superiores a
outros medicamentos orais para enxaqueca, a
existência de tratamentos mais econômicos
para a doença reforçam a inviabilização
dessa terapia como primeira linha e sua
inserção no sistema público11.
A internação
hospitalar do paciente com quadro de
enxaqueca pode ser necessária para descartar
causas secundárias da dor e para realizar o
seu manejo na fase aguda. Neste sentido, a
equipe multiprofissional pode otimizar o
cuidado ao paciente enxaquecoso levando em
consideração alguns pontos essenciais para
tornar o ambiente hospitalar mais acolhedor.
Pequenos gestos, como evitar ligar a luz do
leito de forma repentina ao entrar no quarto
e usar desinfetantes e outros produtos para
assepsia com fragrância ou cheiro forte,
podem minimizar os efeitos da fotofobia e
osmofobia (hipersensibilidade a odores).
Proteger os olhos do paciente com toalhas
frescas ou oferecer gelo para aliviar o
incômodo também são boas opções. Além disso,
um cuidado especial com a alimentação é
primordial, procurando adequar o
planejamento nutricional com os gatilhos
alimentares do paciente. Essas adaptações
demonstram sensibilidade e respeito ao
bem-estar com o paciente, minimizam o
desconforto do ambiente hospitalar, e
contribuem para um atendimento mais
humanizado11.
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* Alunas de
mestrado - UnB - disciplina da
Pós-Graduação.