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Editorial do mês

 

 

A dor do corpo perfeito
Alex Alves de Souza* e  Dândara Santos Silva**

 

A beleza sempre esteve ligada às reflexões filosóficas, à crítica literária, à história da arte e aos aspectos culturais. Os padrões estéticos não são imutáveis. Esses tais variam no espaço-tempo, pairando entre uma e outra região, perpetuando-se sobre várias culturas. O estilo e o asseio pessoal sofrem várias transformações no curso do tempo, refletindo as tradições e os costumes de períodos específicos da história. Os padrões de beleza se modificam a cada época com base na evolução comportamental, sendo caracterizados por um padrão que é tido como ideal¹,².

 

Desde os tempos mais remotos da história e pré-história o ser humano tem uma preocupação com o tratamento do seu corpo, tornando-o um objeto cultural. Relatos antigos têm mostrado que os egípcios utilizavam cosméticos para cerimônias religiosas e henna para enfeitar o corpo e as unhas; já os hebreus se valiam de diversas técnicas de asseio e cuidados com a pele que foram adquiridas de diversas culturas, resultado de sua natureza nômade. Na Grécia surge a primeira tentativa de padronização de beleza, onde tentavam combinar a proporção das formas e o equilíbrio, buscando formas para melhorar a saúde e a aparência. Partindo para idade média, o uso de maquiagem era extremamente combatido pela a religião dominante por ser considerada uma prática sedutora, e o ideal de beleza feminina era a pele branquíssima, cabelos louros e ar virginal¹,².

 

Chegando o século XX, com o advento da globalização, os padrões de beleza se tornaram mais líquidos. As mudanças destes padrões não se deram mais em séculos, mas em décadas, havendo uma maior cobrança às mulheres em relação a estética e beleza. Corpos malhados em academias, emagrecidos por dietas, maquiagem no tom da moda, cabelos pintados para esconder os fios brancos, unhas embelezadas, pelos depilados e cremes para rejuvenescimento fazem parte do arsenal para a busca do ideal de beleza. No início do século XXI agregou-se à área a nanotecnologia, que permitiu o revigoramento de ingredientes já testados, criação de novos produtos e diminuição de reações adversas. A aparelhagem foi sofisticada e os tratamentos cosméticos mais personalizados, destinados para cada tipo de pele e idade. Desde então, o número de salões de beleza se multiplicou e as operações de cirurgia plástica tiveram uma progressão anual altíssima.

 

A prática do culto ao corpo ideal é reforçada e encorajada constantemente pela mídia, mantendo assim o mercado da “indústria da beleza” aberto e aquecido continuamente. Apesar deste ser um nicho mercadológico com grande investimento de capital, devido ao seu elevado potencial de retorno financeiro, e das tecnologias de ponta envolvidas nos processos de embelezamento, muitos dos procedimentos estéticos disponíveis ainda envolvem processos dolorosos. Por muitas vezes, a dor a qual as pessoas se submetem em busca do corpo perfeito é romantizada e normalizada, sendo percebida como parte natural do processo para alcance do padrão de beleza. Não é incomum ouvir discursos tais como “sem dor, sem ganho”, “é preciso sofrer para estar bonita e jovem” e “o sofrimento é o preço da beleza” 3,4.

 

De acordo com a Sociedade Internacional de Cirurgias Plásticas e Estéticas (ISAPS), o Brasil ocupa a primeira colocação no ranking internacional de maiores consumidores de cirurgias estéticas, tendo realizado no ano de 2019 cerca de 1,5 milhões de procedimentos cirúrgicos com esta finalidade5. De acordo com uma pesquisa5 realizada pela ISAPS os cinco procedimentos estéticos não cirúrgicos mais procurados mundialmente em 2019 foram a administração de toxina botulínica, ácido hialurônico, peeling químico, hidroxiapatita de cálcio e foto-rejuvenescimento. Já quando se trata de cirurgia plástica, os cinco procedimentos mais comumente requisitados ao redor do mundo foram a lipoaspiração, aumento de mama, abdominoplastia, cirurgia das pálpebras e aumento de nádegas. O que todos estes procedimentos têm em comum? A dor que causam! E no caso dos procedimentos cirúrgicos, além da dor no pós-operatório, há risco de infecções e até mesmo de morte por complicações mais graves5-10. Entretanto, a insatisfação com a própria imagem, que parece ser a principal causa da busca demasiada por procedimentos estéticos, se sobrepõem aos riscos e à dor, mesmo que intensa, do procedimento.

 

A pandemia da COVID-19 também trouxe impactos sobre a autoimagem e beleza idealizada. A demasiada observação da própria imagem em reuniões e aulas online, ocorridas em função do isolamento social, fizeram com que as pessoas observassem mais sua aparência. Desta forma, aspectos que antes passavam desapercebidos passaram a gerar desconforto e insatisfação com a autoimagem. Este fenômeno aumentou a busca por cirurgia estética, sobretudo as realizadas na face tal como a rinoplastia, que é apontada como o procedimento mais procurado em 202011. Essa crescente demanda mercadológica impulsionou a oferta de cirurgias por profissionais não habilitados levando a complicações graves. O que seria o sonho do nariz perfeito se torna um pós-operatório desastroso, com narinas assimétricas ou deformadas, dificuldade para respirar e dores crônicas. Nos primeiros cinco meses de 2021 houve três vezes mais buscas por procedimentos para reparar danos causados por cirurgias no nariz, porém, em algumas situações os danos são irreversíveis12. Mesmo frente a todos estes agravantes, de acordo com pesquisas realizadas pela Sociedade Brasileira de Dermatologia e Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, os procedimentos estéticos invasivos e não invasivos vem crescendo continuamente no Brasil, inclusive entre adolescentes12.

 

A dor do corpo perfeito é uma realidade imposta pela beleza idealizada, e pode configurar um comportamento de risco, que ocasionalmente pode estar associado à dificuldade de autoaceitação. Uma pergunta é necessária neste contexto: frente a diversidade de raças, cores, características e biotipos existentes há mesmo um tipo de corpo que pode ser considerado o padrão de beleza?

 

Referências:

1) KURY, Lorelai; HANGREAVES, Lourdes; VALENÇA, Máslova T. Ritos do Corpo. Rio de Janeiro: Senac Nacional, 2000.

2) D’ANGELO, Janet; LOTZ, Shelley; DEITZ, Sallie. Fundamentos de Estética 1:orientações e negócios. 10. ed. São Paulo, 2001.

3) SALEM, Shâmia. Veja 10 tratamentos de beleza considerados dolorosos e os seus benefícios ... - Veja mais em https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2014/07/10/veja-10-tratamentos-de-beleza-considerados-dolorosos-e-os-seus-beneficios.htm?cmpid=copiaecola. Universia UOL, São Paulo, p. 1, 10 jul. 2017. Disponível em: https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2014/07/10/veja-10-tratamentos-de-beleza-considerados-dolorosos-e-os-seus-beneficios.htm. Acesso em: 26 out. 2021.

4) Silva, M. J. de B., & Farias, S. A. de(2020). No pain, no gain! Reflections on the perception of sacrifice in the fitness consumer. Brazilian Journal of Marketing, 19(2), 388-405. https://doi.org/10.5585/remark.v19i2.17775.

5) International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS). International Survey on Aesthetic/Cosmetic Procedures. 2019. Disponível em: https://www.isaps.org/wp-content/uploads/2020/12/Global-Survey-2019.pdf. Acesso em: 02 nov 2021.

6) Heitmann C, Czermak C, Germann G. Rapidly fatal necrotizing fasciitis after aesthetic liposuction. Aesthetic Plast Surg. 2000 Sep-Oct;24(5):344-7. doi: 10.1007/s002660010056. PMID: 11084695.

7) Wylde V, Dennis J, Beswick AD, Bruce J, Eccleston C, Howells N, Peters TJ, Gooberman-Hill R. Systematic review of management of chronic pain after surgery. Br J Surg. 2017 Sep;104(10):1293-1306. doi: 10.1002/bjs.10601. Epub 2017 Jul 6. PMID: 28681962; PMCID: PMC5599964.

8) Von Sperling ML, Høimyr H, Finnerup K, Jensen TS, Finnerup NB. Chronic postoperative pain and sensory changes following reduction mammaplasty. Scand J Pain. 2011 Apr 1;2(2):57-61. doi: 10.1016/j.sjpain.2011.01.002. PMID: 29913730.

9) Roth RS, Qi J, Hamill JB, Kim HM, Ballard TNS, Pusic AL, Wilkins EG. Is chronic postsurgical pain surgery-induced? A study of persistent postoperative pain following breast reconstruction. Breast. 2018 Feb;37:119-125. doi: 10.1016/j.breast.2017.11.001. Epub 2017 Nov 13. PMID: 29145033; PMCID: PMC5742544.

10) Meraj TS, Bresler A, Zuliani GF. Acute Pain Management Following Facial Plastic Surgery. Otolaryngol Clin North Am. 2020 Oct;53(5):811-817. doi: 10.1016/j.otc.2020.05.010. Epub 2020 Jun 24. PMID: 32593429.

11) COLLUCCI, Cláudia. ‘Efeito Zoom‘ faz pessoas acharem nariz feio e gera onda de rinoplastias: Procedimento, que virou febre entre influencers, é alvo de disputa de profissionais da saúde. Folha de São Paulo - UOL, São Paulo, p. 1, 11 nov. 2021. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2021/09/efeito-zoom-faz-pessoas-acharem-nariz-feio-e-gera-onda-de-rinoplastias.shtml. Acesso em: 1 nov. 2021.


* Aluno de doutorado - UFBA - PPGFAR

** Aluna de doutorado - FIOCRUZ - PGBSMI