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Editorial do mês

 

 

As vantagens e limitações da telemedicina para o manejo da dor crônica
Leticia Santos Almeida *, Cristiane Flora Villarreal **

 

A pandemia da COVID-19 provocou uma mudança abrupta nos sistemas de saúde de todo o mundo. Recursos humanos, materiais e financeiros desses sistemas foram realocados para o tratamento de pacientes infectados pelo novo coronavírus, e também para prevenção e proteção da equipe de saúde e outros pacientes. Pacientes, incluindo os acometidos por condições dolorosas crônicas, são aconselhados a se manterem em casa, para respeitar o distanciamento social e só procurarem o serviço médico em caso de urgência. A recuperação espontânea, em casos de dor crônica, é rara e os pacientes que esperam por tratamento da dor, normalmente, reportam dor severa que interfere com a habilidade de realizar tarefas do dia-a-dia. A falta de acesso a profissionais de saúde pode levar ao inadequado tratamento da dor, que pode ter consequências graves como a automedicação, o abuso e até mesmo a dependência de opioides, o que por si só, já é uma epidemia crescente. Além disso, pacientes com dor crônica têm maiores chances de desenvolver distúrbios do sono e psiquiátricos, como depressão e ansiedade. Esse panorama tem impulsionado a utilização crescente da telemedicina nos atendimentos de profissionais especializados no tratamento da dor.

 

Antes da explosão da pandemia pelo novo coronavírus, a abordagem de telemedicina, que se refere ao uso de tecnologias para a obtenção de assistência médica à distância, já estava sendo utilizada por pacientes com dor crônica como uma alternativa economicamente viável para o tratamento e manutenção do tratamento dessa condição. A dor crônica possui natureza multifatorial, requerendo acompanhamento por diferentes tipos de especialistas, o que torna seu manejo complexo e de alto custo. Nesse sentido, a telemedicina é uma aliada potencial para o controle da dor crônica, reduzindo custos, deslocamentos e o tempo dispendido no tratamento. A telemedicina, incluindo consultas por telefone, mensagens informativas e vídeo-chamada, é difundida pelo mundo desenvolvido como uma forma de mimetizar consultas tradicionais. Estados Unidos e Europa possuem sistemas online que permitem que pacientes com dor recebam atendimento à distância. Nesses sistemas, os profissionais de saúde podem revisar prontuários, avaliar a conduta terapêutica e conduzir sua consulta virtualmente. Por meio de chamadas de vídeo é possível avaliar a aparência e movimento do paciente, e até mesmo conduzir um autoexame guiado. A perspectiva de ampliar gradualmente o uso dessa abordagem para pacientes com dor crônica em países em desenvolvimento, incluindo o Brasil, é favorável, considerando que o atendimento por via remota, pode lançar mão de tecnologias bem difundidas e de baixo custo, como a utilização de smartphones.

 

Por outro lado, estudos que avaliam as plataformas de telemedicina enfatizam que a prática da saúde digital ainda precisa superar algumas limitações. Uma das principais é a falta de conhecimento técnico dos pacientes para acessar essas plataformas, uma vez que boa parte de pacientes com dor crônica são idosos. Pacientes com diferentes tipos de deficiência também encontram dificuldade de acesso. Outro ponto é a capacitação dos profissionais que irão prestar o serviço online, já que as carreiras em saúde, até então, são praticadas presencialmente. Uma limitação ainda mais relevante é o estabelecimento, cultivo e manutenção do vínculo terapêutico entre o profissional e o paciente, que se torna mais difícil no mundo virtual. Quando esse vínculo é bem estabelecido, nota-se maior adesão do paciente ao tratamento e menores taxas de desistência. A população brasileira possui barreiras ainda mais fundamentais a serem ultrapassadas para que tenha acesso à telemedicina. O acesso à internet ainda é majoritário nas classes mais altas, e apenas 57% dos brasileiros nas classes D e E possuem esse serviço. Boa parte da população de classes mais baixas que possui acesso à internet, é denominada “analfabetos digitais”, ou seja, não possuem autonomia, conhecimento ou desempenho efetivo no manuseio de ferramentas digitais. O custo de se implementar o serviço de telemedicina e treinar profissionais para essa nova realidade nos hospitais brasileiros é outro ponto crucial, uma vez que o sistema de saúde possui uma tabela de valores defasada, fator que leva a um sub-financiamento significativo do SUS.

 

A pandemia por coronavírus gerou uma mudança brusca no cenário mundial. A principal ferramenta para a contenção do vírus é o distanciamento social, medida que tem por objetivo evitar aglomerações, entretanto, limita o acesso de pacientes com dor crônica a profissionais especializados. A saída que os países de primeiro mundo encontraram foi a adequação do tratamento por via remota, que já vem demonstrando resultados positivos, embora apresente inúmeras limitações que vão desde dificuldades de acesso e capacitação até o comprometimento do vínculo de confiança médico-paciente. O panorama nos países em desenvolvimento, como o Brasil, é agravado pela desigualdade social, considerando que a revolução digital chega a passos curtos à população mais carente desses países. Dessa forma, a telemedicina ainda está longe de ser uma realidade na prática clínica em países mais pobres. O atual contexto de crise econômica e tecnológica, acentuado pela pandemia, torna ainda mais distante a utilização massiva da assistência médica à distância no Brasil. Dessa forma, embora a telemedicina possa ser considerada uma abordagem com potencial contribuição para o controle da dor crônica, no atual contexto, seu impacto em países em desenvolvimento é ainda limitado.

 

Referências:

  • Cohen SP, Baber ZB, Buvanendran A, et al. Pain Management Best Practices from Multispecialty Organizations during the COVID-19 Pandemic and Public Health Crises [published online ahead of print, 2020 Apr 7]. Pain Med. 2020;pnaa127. doi:10.1093/pm/pnaa127

  • Eccleston C, Blyth FM, Dear BF, et al. Managing patients with chronic pain during the COVID-19 outbreak: considerations for the rapid introduction of remotely supported (eHealth) pain management services. Pain. 2020;161(5):889‐893. doi:10.1097/j.pain.0000000000001885

  • Webster F, Connoy L, Sud A, Pinto AD e Katz J. Grappling with Chronic Pain and Poverty during the COVID-19 Pandemic. Canadian Journal of Pain. 2020, doi:10.1080/24740527.2020.1766855

  • Kruse C, Betancourt J, Ortiz S, Valdes Luna SM, Bamrah IK, Segovia N. Barriers to the Use of Mobile Health in Improving Health Outcomes in Developing Countries: Systematic Review. J Med Internet Res. 2019;21(10):e13263. Published 2019 Oct 9. doi:10.2196/13263


* Equipe da Universidade Federal da Bahia
** Professora Associada de Farmacologia da Faculdade de Farmácia - Universidade Federal da Bahia