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Editorial do mês

 

 

O panorama da linguagem dos artigos científicos nas mídias sociais

Kênia Fonseca Pires *

Mariane Aparecida da Silva Marques **
 

O caminho da geração de pesquisa inicia-se com a produção de pesquisa acadêmica nas universidades, seguido de publicação em revistas reconhecidas no meio científico e posteriormente as reportagens/manchetes nas mídias sociais permitem ao leitor conhecer muitos mecanismos envolvidos em tratamentos e seus resultados.

 

Muitos jornais de grande circulação e revistas de notícias, as mais utilizadas no serviço de transmissão em redes populares lançam boletins de notas sobre a saúde com falhas nos benefícios, qualidade das evidências e existência de outras opções de tratamento.

 

O problema nos relatórios jornalísticos distorcidos relatados é que eles podem gerar falsas esperanças e medos injustificados. Relatórios de saúde precisos, equilibrados e completos são cruciais, para que os consumidores de serviços de saúde estejam devidamente informados e prontos para participar da tomada de decisões sobre seus cuidados de saúde.

 

O sucesso acadêmico de um pesquisador está frequentemente ligado a pesquisas realizadas e publicadas em revistas de alto impacto. Entretanto, também é necessário que as publicações das pesquisas, sejam individuais e ou institucionais que expressem o quanto são citadas em outras pesquisas.

 

Situações problemáticas direcionadas as publicações estão sendo reportadas nas mídias sociais como divulgação cientifica (diagnósticos/informações) de forma errônea, resultados imprecisos e ou evidência exagerada e que transmitem a sociedade uma imagem distorcida da realidade.

 

Para entender melhor essa questão, uma equipe multidisciplinar, liderada por Noah Haber, pesquisador na Universidade da Carolina do Norte/UNC, investigou o estado de inferência causal na pesquisa em saúde nas mídias sociais.

 

Estes autores utilizaram um banco de dados que acompanha como as pessoas se envolvem nas mídias sociais diante as pesquisas em saúde. Foram analisados 50 artigos acadêmicos que foram mais compartilhados no Facebook e Twiter em 2015, bem como as matérias/manchetes que foram publicadas nas mídias sociais.

 

Os benefícios das publicações dos artigos científicos são promissores no campo da ciência, ou seja, quanto mais aumentam as citações de seus estudos, maior as chances de promoção e estabilidade na linha de pesquisa.

 

Por outro lado, enquanto uma história altamente visível de um avanço médico dramático pode impulsionar a carreira de um jornalista e geralmente disseminam manchetes exageradas, imprecisas e / ou enganosas para alcançar e aumentar o tamanho da audiência.

 

Os resultados desta pesquisa demonstraram que apenas uma pequena fração dos estudos acadêmicos relacionados à saúde apresentou uma forte inferência causal publicada em revistas científicas e nas mídias sociais, porém a maioria dos estudos publicados pela mídia social foi susceptível a exagero da força de inferência causal e no relato de forma imprecisa das principais características e / ou resultados dos estudos.

 

Uma das estratégias lançadas neste artigo foi a liberação de uma lista das principais conclusões dos estudos e várias interpretações errôneas e declarações exageradas. O objetivo é tentar evitar má interpretação por parte dos leitores e para isto, os autores deste artigo convocaram os pesquisadores para que examinem, critiquem e repliquem seus trabalhos para que haja melhor entendimento ao inferir os resultados nas mídias sociais.

 

O esforço desta equipe permite (re) pensar a importância no alinhamento da linguagem usada por pesquisadores e jornalistas sobre os resultados dos estudos em saúde, sobretudo quando falamos de Dor.

 

A ciência e a mídia social requerem um novo panorama no qual as grandes contribuições dos estudos estejam voltadas para a melhoria da saúde da população e para isto pesquisadores, jornalistas e consumidores deverão se comprometer com a precisão e informações ajustadas desde a criação da pesquisa até o seu consumo.

 

Uma das origens de noticias equivocadas estão relacionadas a falta de treinamento de jornalistas no entendimento e interpretação dos dados estatísticos gerados a partir da metodologia aplicada numa pesquisa científica. Geralmente as notícias são escritas por editores de notícias e não por repórteres específicos a saúde.

 

Os resultados são impactantes e sensacionalistas e diante desse cenário há uma distância na realidade da pesquisa biomédica e que muitas vezes pesquisadores e repórteres são considerados como “colabores cúmplices” para se beneficiarem de uma história/ noticia sensacionalista.

 

Esta publicação nos informa que a propensão aos exageros pode estar ligada as agências de financiamento e as instituições de pesquisas.

 

Para isto os comunicados de imprensa devem incluir:

(1) seção colocando os resultados em contexto;

(2) uma seção para as limitações do estudo;

(3) uma declaração dos autores do estudo e interesses concorrentes e

(4) resumo dos resultados quantitativos expressa em medidas absolutas.

 

Entretanto boas notícias também devem ser ressaltadas. Neste editorial foi destacado que apesar do risco de superpromoção da mídia em relação aos achados da pesquisa genética, apenas 11 % de 627 jornais haviam promovido os achados de forma equivocada e recomendam as histórias classificadas por Schwitzer (2008) sobre o trabalho equilibrado de repórteres médicos sobre artigos científicos e promoviam informações precisas e em prol da cidadania.

 

Referências:

  • The PLoS Medicine Editors. False Hopes, Unwarranted Fears:The Trouble with Medical News Stories. PLoS Medicine | www.plosmedicine.org 0681 May 2008. Volume 5.Issue 5.

  • Schwitzer G (2008) How do US journalists cover treatments, tests, products, and procedures? An evaluation of 500 stories. PLoS Med 5: e95. doi:10.1371/journal.pmed.0050095

  • Harber et al (2018).Causal language and strength of inference in academic and media articles shared in social media (CLAIMS): A systematic review. PLOS ONE | https://doi.org/10.1371/journal.pone.0196346 May 30, 2018


* Equipe de extensão da Faculdade de Ceilândia – Universidade de Brasília (FCE – UnB)

** Professora Adjunta na área de Enfermagem e Farmacologia da Faculdade de Ceilândia - Universidade de Brasília