Caracterizada
como uma conduta de violência agressiva e
intencional em que um indivíduo é submetido
a um relacionamento de desigualdade de
poder, o bullying pode ser manifestado de
diversas formas, sendo elas agressão física,
verbal ou indireta e manipulação de
dinâmicas sociais associados a abuso verbal
e apelidos pejorativos, cometidos por uma ou
mais pessoas1,2.
Afetando de
forma significativa diferentes populações,
determinados grupos como negros, a população
lgbtqiap+ e neurodivergentes estão mais
expostos ao bullying. Dentro dessas
populações, crianças e adolescentes são as
que apresentam a maior exposição ao bullying,
causado principalmente por diferenças na
aparência do corpo, aparência do rosto e cor
ou raça3. Para que os alunos sejam
considerados vítimas, o bullying deve
ocorrer de uma a duas vezes por mês4. Em uma
pesquisa global focada nesta população e
publicada pelas organizações das Nações
Unidas para a Educação, Ciência e Cultura
(UNESCO), foi identificado os seguintes
índices de prevalência de bullying escolar
nas regiões: Caribe (25%); América do Norte
(31,7%); Europa (25%); Oriente Médio
(41,1%); América Central (22,8%); América do
Sul (30,2%); África do Norte (42,7%) e
África Subsaariana (48,2%).
Ainda que essa
estatística demonstre a gravidade do
bullying entre grupos específicos, é
imprescindível reconhecer que o bullying
pode afetar qualquer criança e adolescente,
independentemente de sua origem ou condição,
levando a sérias consequências psicológicas
e físicas a longo prazo5. Desta forma,
reconhecido como um fator de progressão para
dor em indivíduos, o bullying, como condição
de estresse psicossocial, pode desencadear
alterações na percepção e sensibilidade à
dor, podendo ocasionar a longo prazo o
desenvolvimento de dor crônica. Esse
estresse crônico ocasiona um processo
biológico denominada carga alostática, no
qual sistemas como o cardiovascular,
neuroendócrino, imunológico e metabólico,
que são mais propensos a responderem a esse
tipo de estímulo, são ativados de forma
frequente sem tempo para recuperação,
ocorrendo uma sobrecarga fisiológica e o
risco no desenvolvimento de dor e de
diversas patologias6,7.
Além disso,
mudanças epigenéticas influenciadas em
determinado momento da vida por fatores
externos como o bullying, podem desencadear
também, a ativação de determinados genes, em
específico, polimorfismos de micro-RNA, que
podem maximizar a resposta à dor em
indivíduos expostos ao bullying, alterando a
forma como o corpo responde ao estresse e no
estímulo de forma indevida do sistema
imunológico e dos processos metabólicos7,8.
Em um estudo
transversal quantitativo realizado com 213
crianças em idade escolar realizado por
Malhi e Bharti (2020) para investigar a
associação entre sintomas físicos e bullying,
constatou-se uma relação positiva para esta
associação se comparados a estudantes que
não estavam envolvidos. Os sintomas mais
comuns relatados pelas vítimas foram dor nos
braços e pernas (19,6%), fraqueza (30,4%),
dor de estômago (33,9%), dor no peito
(35,7%) e, com maior taxa, dor de cabeça
(60,7%)9. Um estudo descritivo qualitativo
com 42 crianças focado na avaliação da
experiência da dor, também comprovou a
manifestação de sintomas físicos caso as
crianças fossem alvos de provocações ou
falas desagradáveis sobre elas10.
Lucas, R. et
al. (2023), por meio de um estudo
longitudinal observacional com dados obtidos
do estudo de coorte de nascimento "Geração
XXI" em Portugal, com 4049 adolescentes na
faixa entre 10 e 13 anos, avaliaram as
associações longitudinais entre perfis de
bullying e dor musculoesquelética. O estudo
revelou que vítimas de bullying, aos 10
anos, apresentavam 28% a mais de risco de
desenvolver dor musculoesquelética aos 13
anos. Para os que foram vítimas e
agressores, o risco foi de 30% e, para
somente agressores, não houve diferença
significativa relacionada ao histórico de
dor. Além disso, a investigação constatou
que vítimas de bullying apresentaram
limiares de dor mais baixos e maior
intensidade de dor aos 13 anos,
revelando-nos que estas crianças começaram a
sentir dor mais facilmente, com o aumento de
sua intensidade ao passar do tempo11.
Esses efeitos
estão de acordo com a definição revisada de
dor pela Sociedade Brasileira para Estudos
da Dor (SBED), que considera a dor, como uma
experiência sensitiva e emocional
influenciada por fatores biológicos,
psicológicos e sociais. Contudo, a dor pode
ser classificada em nociceptiva, neuropática
e mista, e, dependendo do seu mecanismo,
pode apresentar desafios distintos para o
tratamento12. Mesmo que existam avanços no
tratamento da dor, como o uso de
canabinoides13 e outras terapias inovadoras,
o tratamento em crianças e adolescentes é
limitado. Isto ocorre devido à tenra idade e
falta de ensaios clínicos nessa população
além das diferenças de desenvolvimento
fisiológico, necessidade de abordagens
individualizadas e considerações
médico-legais, o que ocasiona um desafio
para garantir, de forma segura e eficaz, o
tratamento da dor devido à sua complexidade
e ao requerimento de manejo farmacológico e
não farmacológico14–16.
Diante disso,
estratégias aliadas à prevenção de
experiências adversas, são essenciais para
reduzir os impactos negativos do bullying e
outras adversidades na infância. No Brasil
por exemplo, a Lei Federal nº 13.185/2015
criou o Programa de Combate à Intimidação
Sistemática (Bullying), determinando que
todas as instituições de ensino implementem
ações voltadas para a conscientização,
prevenção, identificação e enfrentamento da
violência e da intimidação sistemática.
Posteriormente, em 14 de maio de 2018, a Lei
nº 13.663 foi sancionada pelo Governo
Federal, promovendo uma alteração no artigo
12 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional (Lei nº 9.394/1996). Essa
modificação incluiu nas responsabilidades
das escolas a adoção de iniciativas para
conscientizar, prevenir e combater todas as
formas de violência, além de fomentar a
cultura de paz no ambiente escolar17. Desta
forma, a incidência do bullying pode ser
atenuada ocasionando a redução do
desenvolvimento de dor em crianças e
adolescentes relacionadas à violência
escolar.
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* Alunos de
pós-graduação da disciplina "Ação
Multi-institucional de Divulgação Científica
DOL - Dor On Line - FCTS UnB