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Editorial do mês

 

 

O impacto psicológico do bullying em crianças e adolescentes e seu papel no desenvolvimento da dor
Felipe Sousa Siqueira, Ana Clara Gonçalves da Costa e Samuel Barbosa Mezavila Abdelmur *

 

Caracterizada como uma conduta de violência agressiva e intencional em que um indivíduo é submetido a um relacionamento de desigualdade de poder, o bullying pode ser manifestado de diversas formas, sendo elas agressão física, verbal ou indireta e manipulação de dinâmicas sociais associados a abuso verbal e apelidos pejorativos, cometidos por uma ou mais pessoas1,2.

 

Afetando de forma significativa diferentes populações, determinados grupos como negros, a população lgbtqiap+ e neurodivergentes estão mais expostos ao bullying. Dentro dessas populações, crianças e adolescentes são as que apresentam a maior exposição ao bullying, causado principalmente por diferenças na aparência do corpo, aparência do rosto e cor ou raça3. Para que os alunos sejam considerados vítimas, o bullying deve ocorrer de uma a duas vezes por mês4. Em uma pesquisa global focada nesta população e publicada pelas organizações das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), foi identificado os seguintes índices de prevalência de bullying escolar nas regiões: Caribe (25%); América do Norte (31,7%); Europa (25%); Oriente Médio (41,1%); América Central (22,8%); América do Sul (30,2%); África do Norte (42,7%) e África Subsaariana (48,2%).

 

Ainda que essa estatística demonstre a gravidade do bullying entre grupos específicos, é imprescindível reconhecer que o bullying pode afetar qualquer criança e adolescente, independentemente de sua origem ou condição, levando a sérias consequências psicológicas e físicas a longo prazo5. Desta forma, reconhecido como um fator de progressão para dor em indivíduos, o bullying, como condição de estresse psicossocial, pode desencadear alterações na percepção e sensibilidade à dor, podendo ocasionar a longo prazo o desenvolvimento de dor crônica. Esse estresse crônico ocasiona um processo biológico denominada carga alostática, no qual sistemas como o cardiovascular, neuroendócrino, imunológico e metabólico, que são mais propensos a responderem a esse tipo de estímulo, são ativados de forma frequente sem tempo para recuperação, ocorrendo uma sobrecarga fisiológica e o risco no desenvolvimento de dor e de diversas patologias6,7.

 

Além disso, mudanças epigenéticas influenciadas em determinado momento da vida por fatores externos como o bullying, podem desencadear também, a ativação de determinados genes, em específico, polimorfismos de micro-RNA, que podem maximizar a resposta à dor em indivíduos expostos ao bullying, alterando a forma como o corpo responde ao estresse e no estímulo de forma indevida do sistema imunológico e dos processos metabólicos7,8.

 

Em um estudo transversal quantitativo realizado com 213 crianças em idade escolar realizado por Malhi e Bharti (2020) para investigar a associação entre sintomas físicos e bullying, constatou-se uma relação positiva para esta associação se comparados a estudantes que não estavam envolvidos. Os sintomas mais comuns relatados pelas vítimas foram dor nos braços e pernas (19,6%), fraqueza (30,4%), dor de estômago (33,9%), dor no peito (35,7%) e, com maior taxa, dor de cabeça (60,7%)9. Um estudo descritivo qualitativo com 42 crianças focado na avaliação da experiência da dor, também comprovou a manifestação de sintomas físicos caso as crianças fossem alvos de provocações ou falas desagradáveis sobre elas10.

 

Lucas, R. et al. (2023), por meio de um estudo longitudinal observacional com dados obtidos do estudo de coorte de nascimento "Geração XXI" em Portugal, com 4049 adolescentes na faixa entre 10 e 13 anos, avaliaram as associações longitudinais entre perfis de bullying e dor musculoesquelética. O estudo revelou que vítimas de bullying, aos 10 anos, apresentavam 28% a mais de risco de desenvolver dor musculoesquelética aos 13 anos. Para os que foram vítimas e agressores, o risco foi de 30% e, para somente agressores, não houve diferença significativa relacionada ao histórico de dor. Além disso, a investigação constatou que vítimas de bullying apresentaram limiares de dor mais baixos e maior intensidade de dor aos 13 anos, revelando-nos que estas crianças começaram a sentir dor mais facilmente, com o aumento de sua intensidade ao passar do tempo11.

 

Esses efeitos estão de acordo com a definição revisada de dor pela Sociedade Brasileira para Estudos da Dor (SBED), que considera a dor, como uma experiência sensitiva e emocional influenciada por fatores biológicos, psicológicos e sociais. Contudo, a dor pode ser classificada em nociceptiva, neuropática e mista, e, dependendo do seu mecanismo, pode apresentar desafios distintos para o tratamento12. Mesmo que existam avanços no tratamento da dor, como o uso de canabinoides13 e outras terapias inovadoras, o tratamento em crianças e adolescentes é limitado. Isto ocorre devido à tenra idade e falta de ensaios clínicos nessa população além das diferenças de desenvolvimento fisiológico, necessidade de abordagens individualizadas e considerações médico-legais, o que ocasiona um desafio para garantir, de forma segura e eficaz, o tratamento da dor devido à sua complexidade e ao requerimento de manejo farmacológico e não farmacológico14–16.

 

Diante disso, estratégias aliadas à prevenção de experiências adversas, são essenciais para reduzir os impactos negativos do bullying e outras adversidades na infância. No Brasil por exemplo, a Lei Federal nº 13.185/2015 criou o Programa de Combate à Intimidação Sistemática (Bullying), determinando que todas as instituições de ensino implementem ações voltadas para a conscientização, prevenção, identificação e enfrentamento da violência e da intimidação sistemática. Posteriormente, em 14 de maio de 2018, a Lei nº 13.663 foi sancionada pelo Governo Federal, promovendo uma alteração no artigo 12 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996). Essa modificação incluiu nas responsabilidades das escolas a adoção de iniciativas para conscientizar, prevenir e combater todas as formas de violência, além de fomentar a cultura de paz no ambiente escolar17. Desta forma, a incidência do bullying pode ser atenuada ocasionando a redução do desenvolvimento de dor em crianças e adolescentes relacionadas à violência escolar.

 

Referências:

1. Pimentel F de O, Della Méa CP, Dapieve Patias N, Pimentel F de O, Della Méa CP, Dapieve Patias N. Vítimas de bullying, sintomas depressivos, ansiedade, estresse e ideação suicida em adolescentes. Acta Colomb Psicol. 2020;23(2):230-240. doi:10.14718/acp.2020.23.2.9

2. Tristão SKPC, Magno MB, Pintor AVB, et al. Is there a relationship between malocclusion and bullying? A systematic review. Prog Orthod. 2020;21(1):26. doi:10.1186/s40510-020-00323-7

3. Malta DC, Oliveira WA de, Prates EJS, Mello FCM de, Moutinho C dos S, Silva MAI. Bullying entre adolescentes brasileiros: evidências das Pesquisas Nacionais de Saúde do Escolar, Brasil, 2015 e 2019. Rev Lat Am Enfermagem. 2022;30:e3679. doi:https://doi.org/10.1590/1518-8345.6278.3679

4. Behind the numbers: ending school violence and bullying - UNESCO Digital Library. Accessed January 23, 2025. https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000366483

5. Bhatia, Richa. Current Opinion in Psychiatry. 2023. Accessed January 23, 2025. https://journals.lww.com/copsychiatry/abstract/2023/11000/the_impact_of_bullying_in_childhood_and.10.aspx

6. Voerman J s., Vogel I, de Waart F, et al. Bullying, abuse and family conflict as risk factors for chronic pain among Dutch adolescents. Eur J Pain. 2015;19(10):1544-1551. doi:10.1002/ejp.689

7. Zarate-Garza PP, Biggs BK, Croarkin P, et al. How Well Do We Understand the Long-Term Health Implications of Childhood Bullying? Harv Rev Psychiatry. 2017;25(2):89. doi:10.1097/HRP.0000000000000137

8. Jacobsen DP, Eriksen MB, Rajalingam D, et al. Exposure to workplace bullying, microRNAs and pain; evidence of a moderating effect of miR-30c rs928508 and miR-223 rs3848900. Stress. 2020;23(1):77-86. doi:10.1080/10253890.2019.1642320

9. Malhi P, Bharti B. School Bullying and Association with Somatic Complaints in Victimized Children. Indian J Pediatr. 2021;88(10):962-967. doi:10.1007/s12098-020-03620-5

10. Persson S, Warghoff A, Einberg EL, Garmy P. Schoolchildren’s experience of pain-A focus group interview study. Acta Paediatr Oslo Nor 1992. 2021;110(3):909-913. doi:10.1111/apa.15493

11. Lucas R, Fraga S, Soares S, Talih M. Pos0260 Childhood Bullying and Musculoskeletal Pain in Adolescence: A Prospective Study of Reported Pain History and Quantitative Sensory Testing. Ann Rheum Dis. 2023;82(Suppl 1):367-368. doi:10.1136/annrheumdis-2023-eular.1497

12. Shraim MA, Massé-Alarie H, Hall LM, Hodges PW. Systematic Review and Synthesis of Mechanism-based Classification Systems for Pain Experienced in the Musculoskeletal System. Clin J Pain. 2020;36(10):793. doi:10.1097/AJP.0000000000000860

13. Costa M dos SS, Mageste CC, Guedes FHE, Reis LP, Lazzarini LH, Américo A de FQ. Uso compassivo de Cannabis medicinal para tratamento de dor em criança com Síndrome de Klippel-Trenaunay. Relato de caso. BrJP. 2024;7:e20240068. doi:https://doi.org/10.5935/2595-0118.20240068-pt

14. Das M, Mathur T, Ravi S, et al. Challenging drug-resistant TB treatment journey for children, adolescents and their care-givers: A qualitative study. PLOS ONE. 2021;16(3):e0248408. doi:10.1371/journal.pone.0248408

15. Toni I, Makosi DM, König J, Urschitz MS, Rascher W, Neubert A. 39 KiDSafe – improving medication safety for children and adolescents: implementation and evaluation of a new form of care. Arch Dis Child. 2023;108(6):A13-A13. doi:10.1136/archdischild-2023-ESDPPP.39

16. Souza TCS de, Bispo DBS, Borges YJ. Inovações no tratamento da dor crônica. Res Soc Dev. 2022;11(16):e283111638205-e283111638205. doi:10.33448/rsd-v11i16.38205

17. Fernandes G, Dell’Aglio DD, Fernandes G, Dell’Aglio DD. MITOS SOBRE BULLYING: O QUE DIZ A CIÊNCIA? Rev FAEEBA Educ E Contemp. 2023;32(69):187-201. doi:10.21879/faeeba2358-0194.2023.v32.n69.p187-201


* Alunos de pós-graduação da disciplina "Ação Multi-institucional de Divulgação Científica DOL - Dor On Line - FCTS UnB