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Editorial do mês

 

 

Morfina - mocinha ou vilã no infarto agudo do miocárdio?
Laís Peres Silva * e Fabíola Maria Ferreira da Silva **

 

O infarto agudo do miocárdio (IAM), é considerado a maior causa de mortes no Brasil e no mundo, e prevê-se que em 2030 seja a principal causa de óbito no mundo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Estima-se que a cada 5 a 7 casos, ocorra um óbito, podendo chegar a 400 mil casos no ano. De acordo com o Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), foram contabilizados entre os anos de 2010 e 2021, 1.066.194 casos de internações diagnosticadas com IAM resultando em um altíssimo gasto público. Entre os desafios que a doença trás, estão o manejo dos sinais e sintomas, o início precoce do tratamento, e a limitações funcionais que impactarão diretamente na produtividade e incapacidade diária do paciente.

 

A dor torácica é o sintoma mais conhecido no IAM, e um dos motivos mais comuns dos pacientes procurarem o pronto-socorro. A dor está relacionada diretamente com o processo de lesão do músculo cardíaco, que tem por característica pressão, aperto ou pontada, podendo ser irradiada para os braços, ombros, pescoço ou mandíbula. A reversibilidade do quadro de dor está associada a uma intervenção rápida e efetiva, com intuito de reperfundir o tecido que está sendo lesionado. A associação de fármacos como analgésicos, anti-agregantes plaquetários e nitratos, é utilizada na “hora de ouro”, para minimizar os efeitos da lesão.

 

A morfina é um potente analgésico comumente empregado no tratamento de dores moderadas a intensas, sejam de natureza aguda ou crônica. Consiste em um alcaloide natural do ópio, originalmente extraído do fruto da planta Papaver someniferum, conhecida popularmente como papoula. Este alcaloide foi isolado da planta no início do século XIX pelo assistente farmacêutico Friedrich Sertürner, que atribuiu ao composto as propriedades analgésicas do ópio. O potencial farmacológico da morfina está relacionado à sua capacidade de se ligar a receptores contidos no sistema nervoso central e sistema nervoso periférico. O fármaco atua como agonista completo desses receptores e como consequência disso altera a percepção da dor. Além de analgesia, outros efeitos da morfina estão associados à ativação de receptores opioides como: depressão respiratória, redução da motilidade gastrointestinal, prurido, náusea, vômitos e sedação.

 

Desde o século XX morfina tem sido utilizada para proporcionar o alívio de diversos tipos de dores, incluindo dores torácicas durantes síndromes coronarianas agudas. Em síndromes coronarianas como o IAM, a morfina é utilizada em conjunto com outros fármacos como terapia adjuvante para garantir efeitos benéficos como o alívio da dor, vasodilatação, diminuição da resistência vascular periférica e a diminuição da ansiedade, melhorando assim o quadro do paciente. Além disso, a morfina também gera a redução da frequência cardíaca e da pressão arterial balanceando a oferta e a demanda de oxigênio no paciente infartado. Contudo, nos últimos anos, a segurança na utilização da morfina neste cenário vem sendo frequentemente questionada no tratamento dos pacientes com IAM.

 

Estudos revelam que a morfina pode influenciar negativamente na farmacocinética de antiplaquetários e aumentar o risco de complicações trombóticas em pacientes com IAM. Em um ensaio clínico randomizado, o medicamento com efeito antiplaquetário ticagrelor obteve sua concentração plasmática diminuída e exposição atenuada ao ser utilizado junto com a morfina pós IAM. Já outro estudo, revelou que o fármaco antiplaquetário clopidogrel teve seu uso concomitante com a morfina associado a um maior risco de morte ou de outros efeitos adversos em pacientes infartados. Além disso, em pacientes pré-tratados com o clopidogrel, o uso da morfina foi associado com uma maior prevalência de eventos isquêmicos cardíacos.

 

Diante disso, é possível concluir que a morfina apresenta vantagens e desvantagens para o tratamento da dor em pacientes com IAM. Até o momento não há estudos randomizados com desfechos de mortalidade e/ou reinfarto associado ao uso da morfina. Porém o potencial de interação da morfina com outros fármacos utilizados no tratamento do IAM tem se mostrado desafiador, com grau de recomendação IIa pela Sociedade Europeia de Cardiologia em 2023, levando a necessidade de buscar alternativas terapêuticas para melhor manejo. Desta maneira, é importante destacar que durante o IAM a morfina pode ser favorável para o desfecho do paciente ou pode contribuir para o seu agravo, cabendo à equipe profissional decidir a respeito da sua utilização, pela avaliação da relação risco/benefício.

 

Referências:

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* Aluna de doutorado- FIOCRUZ/BA - disciplina da Pós-Graduação

** Aluna de doutorado - UnB - disciplina da Pós-Graduação