Em muitas
culturas, a própolis é reconhecida por suas
propriedades medicinais e terapêuticas e foi
historicamente utilizada pelos antigos
egípcios, gregos e romanos. Em particular, a
própolis tem sido usada para embelezamento
da pele, mumificação, conservante e
antisséptico para feridas, abscessos e
tumores(1). Na época Medieval, a própolis
era amplamente usada como um medicamento de
ervas medicinais na Europa Oriental e no
Oriente Médio. No início da Era Moderna, a
própolis se tornou um tema de pesquisa,
particularmente no que diz respeito à
identificação de suas composições
químicas(2).
A própolis é
um valioso produto resinoso, resultante da
mistura de resinas e cera de várias partes
das plantas - como flores e brotos de
folhas, exsudatos, resinas, gomas e
mucilagens - coletadas pelas abelhas ao
redor de sua colmeia, que são então
misturadas e enriquecidas com sua saliva
enzimática (β-glicosidase)(3, 4, 5). As
abelhas usam própolis como selante, para
evitar rachaduras e fendas e para proteger
sua colmeia contra invasores externos, bem
como para estabilizar a temperatura e a
umidade e para inibir qualquer acúmulo de
bactérias e fungos dentro da colmeia (6,7).
A própolis é produzida por diferentes tipos
de abelhas, incluindo abelhas Apis mellifera
e abelhas sem ferrão da tribo Meliponini,
mas sua composição química é muito diversa
entre cada espécie(2).
No Brasil
foram descritas mais de 242 espécies de
abelhas sem ferrão(8). As abelhas sem
ferrão, também conhecidas como abelhas
indígenas, são nativas de países tropicais e
subtropicais como o Brasil, que se
diferenciam de outras áreas geográficas pela
enorme diversidade florística(9,10).
Entretanto, as abelhas presentes no Brasil,
no geral, são um híbrido das abelhas
europeias com a abelha africana Apis
mellifera scutellata, conhecida como abelha
africanizada(11,12).
O Brasil tem
pelo menos treze tipos diferentes de
própolis brasileiras de Apis mellifera
identificados(13). A própolis verde possui
como fonte botânica primária a espécie
alecrim-do-campo(14). A própolis vermelha
possui duas fontes botânicas:
marmeleiro-da-mata ou verônica-branca e
anini(15). Em relação à própolis marrom,
dependendo da origem geográfica foram
identificadas fontes botânicas como:
pinheiro, alecrim-do-campo, eucalipto e
pinheiro-brasileiro(16, 17, 18, 19, 20). Por
outro lado, a origem botânica da própolis
amarela proveniente do Mato Grosso do Sul, é
desconhecida(21). As plantas botânicas
dentro de um raio de até alguns quilômetros
ao redor das colmeias têm um enorme impacto
na composição e no conteúdo físico-químico
da própolis(2). Vários estudos conduzidos
com própolis identificaram mais de 500
constituintes(22). Os constituintes da
própolis, que incluem flavonoides, compostos
fenólicos, terpenos, terpenoides e ácidos
aromáticos, são potenciais agentes
anticancerígenos, antidiabéticos,
anti-inflamatórios, antioxidantes,
antibacterianos e antivirais, o que salienta
o potencial terapêutico da própolis(23).
Além disso, constituintes como o ácido
cinâmico, os ácidos fenólicos e o ácido
cafeico da própolis têm efeitos
antinociceptivos e anti-inflamatórios, o que
aponta para propriedades analgésicas
promissoras(24).
O potencial
analgésico da própolis vem sendo
evidenciado, com base nos resultados de
modelos experimentais de nocicepção em
roedores. No modelo de dor inflamatória da
formalina, o extrato hidroalcoólico de
própolis vermelha brasileira e a isoflavona
isolada formononetina, demonstraram ação
antinociceptiva, inibindo a fase
inflamatória e nociceptiva do teste. Também
apresentaram ação anti-inflamatória, pois
diminuíram o edema inflamatório e a migração
de leucócitos induzidos por carragenina, o
que pode ser associado às suas propriedades
antioxidantes e redução de mediadores
inflamatórios(25). Um estudo com o extrato
alcoólico da própolis brasileira de Melipona
scutellaris (abelha sem ferrão uruçu),
mostrou em modelo experimental, que este
extrato possui propriedades antinociceptivas
associadas a redução da expressão de
importantes citocinas inflamatórias, como
interleucina 1 beta (IL-1β) e fator de
necrose tumoral alfa (TNF-α)(26). A análise
in vivo do extrato alcoólico de própolis
verde brasileira também evidenciou
propriedades antinociceptivas. O extrato
causou uma inibição significativa do
comportamento nociceptivo no modelo de
contorções induzidas pelo ácido acético em
roedores(27). Os autores sugeriram que os
flavonoides presentes no extrato alcoólico
da própolis verde brasileira podem ser
responsáveis pela inibição de mediadores
inflamatórios reduzindo a ativação de
receptores nociceptivos(27).
Alguns estudos
têm investigado os mecanismos por trás do
efeito antinociceptivo da própolis.
Diferentes mediadores químicos, como
serotonina, citocinas, prostaglandina e
aminoácidos excitatórios, estão envolvidos
na patogênese da inflamação e nas respostas
de processamento da dor(31,32). Dessa forma,
a redução da produção desses mediadores,
pode induzir um efeito antinociceptivo.
Compostos flavonoides isolados da própolis
nepalesa inibem a expressão gênica de
mediadores inflamatórios envolvidos na dor,
incluindo TNF-α e as interleucinas 13 (IL-13)
e 6 (IL-6)(33), indicando que esse pode ser
um dos mecanismos de ação da própolis. Além
disso, flavonoides presentes na própolis
apresentam interações com os sistemas de
neurotransmissores GABAérgico e
serotoninérgico, envolvidos com a modulação
da dor no sistema nervoso central. Interagem
também com o aminoácido L-arginina,
substrato essencial para a síntese de óxido
nítrico, que é um mediador de dor e
inflamação (34).
Uma das
principais limitações da pesquisa com
produtos naturais é a falta de
caracterização dos principais compostos
bioativos presentes nas amostras estudadas.
Considerando a grande diversidade química
dos diferentes tipos de própolis existentes,
a falta de identificação química dificulta
que as conclusões de um estudo sejam
consistentes e possam ser generalizadas para
outras própolis. Dessa forma, estudos
futuros que investiguem as atividades
biológicas da própolis devem incluir
informações sobre os tipos de extrato
utilizados, localização geográfica de
origem, e análises químicas do extrato de
própolis. Essas informações padronizam a
pesquisa, viabilizando estudos de replicação
que podem consolidar os potenciais usos
terapêuticos da própolis. Em adição, como a
maioria dos estudos utilizam a própolis da
abelha europeia (Apis mellifera), novas
pesquisas são necessárias para explorar as
propriedades terapêuticas da própolis de
outras espécies de abelhas, como as abelhas
sem ferrão(27). Em conclusão, a própolis é
um produto apícola com potencial
terapêutico, e com evidências científicas de
atividade antinociceptiva. Em países como
Índia e China, existe indicação tradicional
da própolis como alternativa no tratamento
de síndromes dolorosas(27). Por outro lado,
até o presente momento, não existem estudos
clínicos que validem os efeitos analgésicos
da própolis brasileira. Nesse contexto, a
utilização da própolis como tratamento
exclusivo ou alternativo da dor em
pacientes, ainda depende da realização de
estudos clínicos futuros, que forneçam dados
de eficácia e segurança.
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