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Editorial do mês

 

 

Ano global da IASP contra a dor nos mais vulneráveis: uma chamada emergencial
Kênia Fonseca Pires *

 

Desde 2004 a IASP desenvolve anos temáticos que enfocam a atenção mundial em tipos específicos de dor e o gerenciamento multidisciplinar que poderia ajudar a reduzi-la ou aliviá-la. O tema de 2019 é Ano Global Contra a Dor nos Mais Vulneráveis e seu escopo está dividido em quatro subtemas:

  • Dor em bebês e em crianças;

  • Dor nos idosos, incluindo a dor na demência;

  • A dor dos sobreviventes de tortura e guerra;

  • Dor em indivíduos com deficiências cognitivas (não relacionadas à demência) ou transtornos psiquiátricos.

Nestes grupos de pacientes frequentemente são incapazes de comunicar eficazmente com os prestadores de cuidados de saúde, colocando-os em alto risco de dor inadequada avaliação e gestão.

 

Para o presidente da IASP, os desafios não o fazem desacreditar que muitos dos problemas sejam insolúveis, ainda na sua mensagem reforça que a esperança - embora muitos grupos de pacientes tenham diversas experiências com dor e tratamentos – esteja intrinsicamente agregada no trabalho da IASP durante o Ano Global e que esse apoio trará mais pesquisa, educação e ênfase no tratamento da dor para ajudar as populações mais vulneráveis (ARENDT-NIELSEN,2019).

 

A IASP lidera e une as diversas as comunidades da dor em prol da educação de um ano e campanha de divulgação para gerar esperança e acelerar a ajuda.

 

A Sociedade Belga da Dor e Médicos Sem Fronteiras organizaram um evento sobre dor em vítimas de conflitos, torturas e refugiados (13 de março de 2019). A Dor crônica consequente da tortura pode desencadear falta de sincronia nos sistemas nervoso, imunológico e endócrino, os quais podem afetar fisiologia da dor e experiência subjetiva. E ainda é observado que o fenômeno de sensibilização central induz a hipersensibilidade à dor e outros sintomas somáticos e quando se relaciona a modulação descendente da dor e a percepção dolorosa em situações variáveis, particularmente durante a sensação prolongada de ameaça (estresse pós-traumático) a sinalização da dor é facilitatória com diminuição da inibição da dor.

 

Avaliar os pacientes, vítimas de conflitos, torturas e refugiados deve englobar questionários sobre as condições atuais e os riscos contínuos à saúde como acomodação ou falta de moradia, sono interrompido, má alimentação / dinheiro inadequado para alimentação, isolamento, incerta imigração, estado civil e qualquer outro problema em curso. Um componente considerado agravante e que ainda carece do incentivo a pesquisa científica é que muitas das escalas de avaliação da dor não estão disponíveis nos idiomas necessários (AMRIS & WILLIANS, 2015).

 

Contudo, a dor não pode deixar de ser avaliada com escalas simples de dor, por escalas de interferência da dor ou inventários de qualidade de vida e por final as autoras complementam que a angústia deve ser avaliada, porém com expertise no assunto (WILLIANS & ALAYARIAN, 2019).

 

Outro contexto psicossocial da dor crônica muito pesquisado e considerado parte integrante da experiência e tratamento da dor é a dor em pessoas com HIV. As pesquisas revelam que as características do ambiente social, como invalidar ou estigmatizar as respostas de outros, estão associadas a piores desfechos de dor.

 

Para Scott (2019) os fatores sociais macrorrevelados, como a organização dos sistemas de atenção à saúde e políticas de benefício por invalidez também podem impactar a qualidade de vida das pessoas com dor crônica e quando relacionamos os fatores sociais com a neurofisiologia da dor, a inibição da modulação descendente da dor e a experiência da dor dos pacientes são considerados ameaçadores a inclusão social.

 

Uma questão importante a ser destacada para o leitor da área da saúde é a sensibilidade para a utilização de uma linguagem acessível e atualizada na avaliação, sendo necessária quando se discute injustiças e desigualdades sociais. A literatura científica ressalta que as descrições de percepções de injustiça relacionadas à dor como prejudiciais e mal adaptativas são problemáticas.

 

Scott (2019) ainda nos adverte quanto ao uso de linguagem que enfatiza a parte patológica para se referir as experiências, que podem estar enraizadas na injustiça sistêmica atual e que, pode inadvertidamente perpetuar o estigma e a injustiça.

 

Outro cuidado a ser observado é a garantir durante a avaliação da dor o excesso de exagero a responsabilidade pela injustiça relacionada à dor às pessoas vítimas e portadoras do HIV. As consequências do excesso de foco podem diminuir o foco dos esforços para criar sistemas sociais mais equitativos para melhorar a vida de grupos estigmatizados e marginalizados.

 

A Dor nos idosos, incluindo a dor na demência requer alta prevalência em cuidados de longa duração e a dor é frequentemente subtratada e em parte devido à capacidade limitada de muitos pacientes de comunicar a dor por causa das deficiências cognitivas e linguísticas que acompanham a demência. A dor não controlada é uma grande preocupação para os profissionais da área da saúde, não apenas afetando a qualidade de vida, mas também resultando em aumento dos gastos com saúde, bem como estresse e sobrecarga entre a equipe de enfermagem.

 

Pesquisas com a equipe de Hadjistavropoulos et al (2016) atribuíram a avaliação incorreta da dor à prescrição inadequada de medicamentos psicotrópicos, que podem ter efeitos colaterais perigosos e que podem acelerar a morte.

 

O relato de dor pode ser um desafio para pessoas idosas com comprometimento cognitivo secundário à demência e outras doenças neurodegenerativas, acidentes vasculares cerebrais, culturais ou fatores de linguagem, sendo essencial obter um histórico colateral, como observação direta ou escalas de dor observacionais validadas reconhecem como a dor ou o desconforto podem levar a mudanças comportamentais (SAMPSON & PAUTEX, 2019).

 

As Diretrizes da American Geriatrics Society (2002) incluem uma série de indicadores como expressões faciais, verbalizações e vocalizações, movimentos do corpo, mudanças nas interações interpessoais, mudanças nos padrões de atividade ou rotinas e o estado mental para serem adotados na avaliação e também indicam as ferramentas Escala de Dor da Abadia, Avaliação da Dor na Demência Avançada (PAINAD) e Avaliação da Dor Checklist para Idosos com Capacidade Limitada de Comunicação (PACSLAC).

 

A IASP e seus aliados fortes, como a European Pain Federation (EFIC) dedicam para destacar as necessidades de pessoas incapazes de expressar suas dores de uma forma que os profissionais de saúde possam entender facilmente.

 

Nesse sentido o DOL tem trabalhado para informar a sociedade, pacientes, profissionais de saúde por meio de divulgação científica como os editoriais e alertas sobre a dor e com isso aproximar e facilitar a relação entre paciente e profissionais da área da saúde.

 

Referências:

1-Arendt-Nielsen, Lars. IASP Commits 2019 Global Year Campaign to Raising Awareness, Accelerating Actions Against Pain in the Most Vulnerable Populations. https://www.iasp-pain.org/GlobalYear. Acesso em 20/04/2019

2- Amris K; Willians ACC. Managing chronic pain in survivors of torture. Pain Manag. (2015) 5(1), 5–12

3-Williams ACC; Alayarian AS. Chronic pain as consequence of torture: Assessment. 2019 EUROPEAN YEAR AGAINST PAIN IN THE MOST VULNERABLE. EFIC

4-Scottt, W. The psychosocial context of chronic pain in people living with HIV. PAIN Reports: March/April 2019 - Volume 4 - Issue 2 - p e721

5-Hadjistavropoulos, T; Williams J; Kaasalainen S, Hunter PV, Savoie ML; Wickson-Griffiths A.. Increasing the Frequency and Timeliness of Pain Assessment and Management in Long-Term Care: Knowledge Transfer and Sustained Implementation. Pain Res Manag. 2016. doi: 10.1155/2016/6493463

6- Sampson EL; Pautex S.. Palliative Care for the Older Person in Pain. https://www.iasp-pain.org/GlobalYear. Acesso em 20/04/2019

7- American Geriatrics Society. The management of persistent pain in older persons. J Am Geriatr Soc 2002;50(6 Suppl):S205- 224


* Possui graduação em Fisioterapia, Mestre em Fisioterapia e Doutora em Ciências Médicas. Especialista Interdisciplinar em Dor/UFSCar-SP. Membro da Sociedade Brasileira em Estudo em Dor.