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Editorial do mês

 

 

A maior sensibilidade da dor em mulheres
Giovanna França Alves, Raquel Pereira de Souza *

 

A dor, tal como descrita pela Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP), é uma experiência física e emocional. Tal experiência sofre interferências de variáveis como o sexo. Estudos demonstram que as mulheres são mais susceptíveis à dor devido a sua variação hormonal, e que elas utilizam mais medicamentos analgésicos do que os homens. As diferenças de percepção da dor são observadas na resposta clínica dos pacientes e na dor experimental tanto em humanos quanto em modelos animais.

 

Este quadro nos leva a colocar este assunto em pauta, visto que os episódios dolorosos são por muitas vezes incapacitantes e impactam na vida e principalmente do psicológico no sexo feminino. O enfoque nesse assunto poderá ajudar na propagação do mesmo e no manejo da dor por parte dos profissionais de saúde, haja vista que a dor e atualmente reconhecida como quinto sinal vital.

 

Em termos epidemiológicos, é conhecido que as mulheres são mais susceptíveis a desenvolver distúrbios crônicos da dor e desordens relacionadas ao estresse, tais como fibromialgia. Estudos demonstraram que o sexo feminino possui uma maior sobrecarga emocional em quadros dolorosos, marcados por tristeza, choro e outras características, enquanto nos homens observam-se maiores sintomas físicos. Este quadro emocional leva a maior sensibilização da dor, o que pode ajudar a entender o centro da diferença da dor nos sexos, entretanto, tal disparidade pode ser fruto da hiperalgesia ou até mesmo a hipoatividade do controle endógeno da dor.

 

As variações naturais e cíclicas dos hormônios femininos explicam a maior intensidade e menor limiar da dor na percepção de mulheres. Os receptores de estrogênio são expressos em áreas envolvidas na transmissão nociceptiva no sistema nervoso periférico e no sistema nervoso central. Além disso, o papel funcional da testosterona na dor é considerado protetor e antinociceptivo.

 

Tem se estudado também a maneira como as células imunes afetam a sinalização da dor e como os hormônios gonodais (progesterona, estrogênio e testosterona) afetam o sistema imune. Mulheres têm maior resposta inflamatória a danos teciduais do que os homens, com o desenvolvimento de maior inflamação resultando em mais dor. Com relação à dor neuropática, a maior frequência no sexo feminino é explicada por maior propensão a doenças autoimunes, trazendo a dor como um sintoma da patologia.

 

Para os profissionais da saúde é importante observar que essa diferença de percepção entre os sexos pode afetar a sua avaliação clínica, por exemplo, no uso de escalas que consideram a pior experiência de dor que se pode imaginar. Entender esses processos contribui para o desenvolvimento de técnicas analgésicas individualizadas, considerando os diversos fatores associados à percepção álgica. Com isso, pode auxiliar na escolha dos medicamentos, visando um uso mais racional, além de medidas não farmacológicas, tal como o ato de dar as mãos ao parceiro, visto que o toque age nos circuitos de estresse, emoção e atenção, proporcionando assim, uma menor percepção da dor.

 

Destaca-se a importância no manejo clínico e no desenvolvimento de pesquisas que associem a diferença de percepção da dor entre os sexos não somente a questões hormonais, mas também relacionadas a componentes comportamentais, psicológicos e socioculturais.

 

Referências:

  • Aguda D, Género YRDE, Percepciones D, Hombres EN. Acute pain and gender relation: different perceptions in men and women. Rev Rene. 2013;14(1).

  • López-Solà M, Geuter S, Koban L, Coan JA, Wager TD. Brain mechanisms of social touch-induced analgesia in females. Pain. 2019;160(9):2072–85.

  • Maurer AJ, Lissounov A, Knezevic I, Candido KD, Knezevic NN. Pain and sex hormones: a review of current understanding. Pain Manag. 2016;6(3):285–96.

  • Palmeira CC de A, Ashmawi HA, Posso I de P. Sexo e Percepção da Dor e Analgesia. Rev Bras Anestesiol. 2011;61(6):814–28.

  • Rosen S, Ham B, Mogil JS. Sex differences in neuroimmunity and pain. J Neurosci Res. 2017;95(1–2):500–8.


* Editorial produzido no âmbito da disciplina "Seminários Avançados em Pesquisa em Ciências e Tecnologias em Saúde", do Programa de Pós-graduação em Ciências e Tecnologias em Saúde da Faculdade de Ceilândia, UnB.