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Editorial do mês

 

 

Anticorpos monoclonais como terapia para o tratamento de enxaqueca
Beatriz dos Santos Faria e Laura Borges Lopes Garcia Leal*

 

A enxaqueca é definida pela Sociedade Internacional de Enxaqueca (International Headache Society) como um distúrbio primário e incapacitante da dor de cabeça. Caracteriza-se por episódios de cefaleia de intensidade moderada a grave, geralmente unilateral, e pode estar acompanhada de náuseas, fotofobia e hiperacusia. Quando os sintomas persistem por 15 dias ou mais por mês, por tempo superior a três meses, caracteriza-se um quadro de enxaqueca crônica1,2.

 

Pode-se classificar a enxaqueca em dois tipos principais: a enxaqueca sem aura e com aura. A enxaqueca sem aura é uma síndrome clínica caracterizada por cefaleia unilateral, de qualidade pulsátil, intensidade moderada ou grave e associada a outros sintomas. A enxaqueca com aura é identificada pela presença de distúrbios focais e/ou motores transitórios no Sistema Nervoso Central (SNC), como alterações visuais, sensoriais e tremores que normalmente precedem e/ou acompanham a dor de cabeça. Quando os sintomas precedem a dor de cabeça, entende-se por fase prodrômica ou pródromo, ocorrendo horas ou dias antes da cefaleia, seguindo a fase da aura, se houver, e da crise de cefaleia. Já a fase pós-drômica ou pósdromo acontece após a resolução da dor1,3.

 

A doença, uma condição neurológica de alta incidência, é considerada incapacitante por causar prejuízos no trabalho, estudo e na produtividade, além do impacto na qualidade de vida dos indivíduos, afetando uma parcela considerável da população mundial4,5. Os mecanismos envolvidos no processo são complexos, envolvendo alterações na excitabilidade cortical e liberação de neuropeptídeos inflamatórios, em especial o Peptídeo Relacionado ao Gene da Calcitonina (PRGC)5,9. Como forma de prevenir as consequências da enxaqueca, pacientes que se automedicam criam um ciclo vicioso de uso de analgésicos, medicamentos derivados da ergotamina (ergóticos) e outras combinações que, contraditoriamente, criam um feedback que aumenta a frequência e intensidade das crises, condição secundária que piora o quadro clínico, conhecida como “cefaleia de uso excessivo”6.

 

Para evitar esse quadro, é essencial, antes de tudo, o diagnóstico correto da enxaqueca para o tratamento adequado, uma vez que a doença possui sinais e sintomas muito semelhantes a outros tipos de cefaleias. Como os critérios para distinção estão os estabelecidos pela Classificação Internacional de Cefaleias (ICHD-3), o MIDAS (Migraine Disability Assessment), e o uso de exames de imagem como Ressonância Magnética e Tomografia Computadorizada4.

 

O manejo terapêutico da enxaqueca possui duas formas de intervenção: aguda e profilática. Na forma aguda, o tratamento tem como foco os sinais e sintomas da dor. Na forma profilática, o objetivo é que haja o manejo para que as crises seguintes sejam menos duradouras e de menor intensidade. Além disso, o uso de terapias complementares não farmacológicas também é indicado: técnicas de relaxamento, psicoterapia, fisioterapia, acupuntura e mudança no estilo de vida4. Essas terapias têm a finalidade de melhorar a qualidade de vida dos pacientes, diminuir o consumo de analgésicos e retardar a progressão da doença. Em relação às terapias farmacológicas, utiliza-se comumente os medicamentos antidepressivos tricíclicos, anti-inflamatórios, betabloqueadores e anticonvulsivantes4,5.

 

Nesse contexto, a introdução de anticorpos monoclonais como coadjuvantes no tratamento profilático tem recebido notável atenção na prática clínica. A terapia, que é recente no mercado, possui clones de linfócitos B parental, sendo específicos para cada patógeno. No caso da enxaqueca, os anticorpos que possuem como alvo a via do PRGC têm grande visibilidade na literatura, sendo descritos como uma opção segura e tolerada para a profilaxia7.

 

O PRGC é um peptídeo com 2 isoformas, ambas agonistas do receptor de PRGC. O peptídeo está envolvido em diferentes processos fisiológicos e em respostas homeostáticas durante condições fisiopatológicas. No SNC, está envolvido na modulação da dor, na percepção e na sensibilização central. Há evidências do envolvimento do PRGC na fisiopatologia da enxaqueca, por exemplo, em estudos que mostram o aumento sérico do peptídeo durante a crise8,9.

 

Os anticorpos monoclonais são administrados pelas vias endovenosa e subcutânea. Nas injeções subcutâneas, pode-se levar de 2 a 8 dias para atingir o pico das concentrações plasmáticas. Os fatores que afetam a farmacocinética do anticorpo incluem as suas propriedades, sua distribuição, concentração, e as características do paciente, como o índice de massa corporal, sexo, idade e nível de atividade. Por ser um medicamento termolábil, necessita de refrigeração constante (entre 2 e 8º), e mudanças bruscas de temperatura no armazenamento também podem ocasionar em diminuição da efetividade do tratamento8.

 

Os anticorpos monoclonais possuem alta especificidade, por isso, há baixo risco de ação em células e tecidos não desejados. Os efeitos adversos relacionados ao uso do anticorpo podem estar associados à administração do medicamento, causando sinais e sintomas como vermelhidão, dor local e edema10. Embora tenha sido demonstrado que os anticorpos que têm como alvo o sistema PRGC são seguros e bem tolerados, De Boer e colaboradores12 alertam sobre o risco de um evento isquêmico cerebral em pacientes com doença de pequenos vasos, uma vez que o peptídeo é um potente vasodilatador.

 

Em relação à imunogenicidade, as terapias com anticorpos monoclonais podem induzir a biossíntese de autoanticorpos. Essa produção pode, por sua vez, bloquear a atividade dos anticorpos monoclonais ou não produzir efeito sobre sua atividade. Estudos clínicos em pessoas com enxaqueca indicam que a produção de anticorpos contra os anticorpos monoclonais é variável e tem sido estudada para compreender a sua segurança10.

 

Até o momento, quatro anticorpos monoclonais são indicados para o tratamento da enxaqueca (eptinezumabe, erenumabe, fremanezumabe e galcanezumabe). O erenumabe bloqueia especificamente o receptor de PRGC, enquanto os outros se ligam à molécula PRGC. Ensaios clínicos aleatorizados de fase 3 mostraram a eficácia do uso de anticorpos tanto para manejo de enxaqueca episódica como para o tratamento de enxaqueca crônica. Os desfechos positivos incluem redução na frequência da enxaqueca, redução no uso de medicamentos específicos para enxaqueca aguda, diminuição no número de dias mensais de enxaqueca e o seu impacto, e melhores taxas de resposta comparada ao placebo13-16.

 

Uma meta-análise foi realizada com estudos controlados e aleatorizados de fase 3 que avaliaram a segurança e a tolerabilidade dos anticorpos para tratamento da enxaqueca e, dentre eles, os anticorpos monoclonais. Nos estudos avaliados, o fremanezumabe e o galcanezumabe apresentaram maior probabilidade de ocorrência de Eventos Adversos Emergentes do Tratamento (TEAEs) em comparação com o placebo, incluindo eritema, endurecimento e prurido. Em relação a eventos adversos graves, não foram encontradas diferenças significativas entre os tratamentos ativos e o placebo7.

 

Todos os quatro tipos são aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) para o tratamento de crises de enxaqueca. No entanto, no Brasil, os anticorpos monoclonais não pertencem ao elenco da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais - RENAME publicada em 2024, que contempla os medicamentos e insumos disponíveis no SUS17. No cenário mundial, as terapias com anticorpos monoclonais ainda apresentam obstáculos relacionados à acessibilidade, preço e distribuição10. Apesar de os anticorpos monoclonais apresentarem boa tolerabilidade e resultados superiores a outros medicamentos orais para enxaqueca, a existência de tratamentos mais econômicos para a doença reforçam a inviabilização dessa terapia como primeira linha e sua inserção no sistema público11.

 

A internação hospitalar do paciente com quadro de enxaqueca pode ser necessária para descartar causas secundárias da dor e para realizar o seu manejo na fase aguda. Neste sentido, a equipe multiprofissional pode otimizar o cuidado ao paciente enxaquecoso levando em consideração alguns pontos essenciais para tornar o ambiente hospitalar mais acolhedor. Pequenos gestos, como evitar ligar a luz do leito de forma repentina ao entrar no quarto e usar desinfetantes e outros produtos para assepsia com fragrância ou cheiro forte, podem minimizar os efeitos da fotofobia e osmofobia (hipersensibilidade a odores). Proteger os olhos do paciente com toalhas frescas ou oferecer gelo para aliviar o incômodo também são boas opções. Além disso, um cuidado especial com a alimentação é primordial, procurando adequar o planejamento nutricional com os gatilhos alimentares do paciente. Essas adaptações demonstram sensibilidade e respeito ao bem-estar com o paciente, minimizam o desconforto do ambiente hospitalar, e contribuem para um atendimento mais humanizado11.

 

Referências:

  1. Headache Classification Committee of the International Headache Society (IHS). The International Classification of Headache Disorders, 3rd edition. Cephalalgia. 2018;38(1):1-211.

  2. Ruschel MAP, de Jesus O. Migraine headache. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2024.

  3. Coelho LRP, Batista LR, Silva ACB, Ramos ACR, Fagundes LM, Barros BE, et al. Diferenciação diagnóstica de crises neurológicas: epilepsia, síncope, crises psicogênicas, enxaqueca e narcolepsia. Europub J Health Res. 2024;5(2):e5032-e5032.

  4. Alves dos Santos N, De Assunção Leite JC, Dantas de Sousa JD, de Lima Martins Freire MG, Ribeiro Barreto A, Viana Filho AB, et al. Abordagens diagnósticas e terapêuticas nas cefaleias primárias: um enfoque em enxaqueca e cefaleia tensional. Braz J Implantol Health Sci. 2024;6(12):2166–76.

  5. Pinto MPC, Melges FM, Caldas PVD, Silva AEC, Meneghette RL. Enxaqueca - revisão literária. Braz J Health Rev. 2024;7(3):e70456-e70456.

  6. Obermann M, Katsarava Z. Headache attributed to a substance or its withdrawal. Neurol Clin. 2024 May;42(2):497–506.

  7. Messina R, Huessler EM, Puledda F, Haghdoost F, Lebedeva ER, Diener HC. Safety and tolerability of monoclonal antibodies targeting the CGRP pathway and gepants in migraine prevention: A systematic review and network meta-analysis. Cephalalgia. 2023;43(3):3331024231152169.

  8. Levin M, Silberstein SD, Gilbert R, et al. Basic considerations for the use of monoclonal antibodies in migraine. Headache. 2018;58(10):1689-96.

  9. Goadsby PJ, Edvinsson L, Ekman R. Vasoactive peptide release in the circulation of humans during migraine headaches. Ann Neurol. 1990;28:183-7.

  10. González-Hernández A, Marichal-Cancino BA, Villalón CM. The impact of CGRPergic monoclonal antibodies on prophylactic antimigraine therapy and potential adverse events. Expert Opin Drug Metab Toxicol. 2021;17(10):1223-35.

  11. Simioni CVMG. Why are CGRP monoclonal antibodies not yet the first-line treatment in migraine prevention?. Arq Neuro-Psiquiatr. 2022 May;80(5):214–7.

  12. de Boer I, MaassenVanDenBrink A, Terwindt GM. The potential danger of blocking CGRP for treating migraine in CADASIL patients. Cephalalgia. 2020;40(14):1676-8.

  13. Stauffer VL, Dodick DW, Zhang Q, et al. Evaluation of galcanezumab for the prevention of episodic migraine: the EVOLVE-1 randomized clinical trial. JAMA Neurol. 2018;75:1080-8.

  14. Dodick DW, Ashina M, Brandes JL, et al. ARISE: a phase 3 randomized trial of erenumab for episodic migraine. Cephalalgia. 2018;38:1026-37.

  15. Silberstein SD, Dodick DW, Bigal ME, et al. Fremanezumab for the preventive treatment of chronic migraine. N Engl J Med. 2017;377:2113-22.

  16. Lipton RB, Goadsby PJ, Smith J, et al. Efficacy and safety of eptinezumab in patients with chronic migraine: PROMISE-2. Neurology. 2020;94:e1365-77.

  17. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024 [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2024.


* Alunas de mestrado - UnB - disciplina da Pós-Graduação.